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Father Alvaro
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Fonte: Pe. Fausto Santa Catarina
Editora Salesiana do Brasil
Esta é uma pequena biografia que devia ter sido escrita há mais tempo. Para que os contemporâneos (cujo número vai implacavelmente diminuindo) pudessem recordar a figura de quem tanto os edificou com sua presença notável sob qualquer ponto de vista. E para que os que não o conheceram tomassem contato com uma das figuras mais impressionantes de quantas enriqueceram a hagiografia salesiana no Brasil.
Filho de distinta família, Álvaro pôde aprimorar na Europa os estudos bem feitos no Brasil. Ao ouvir, depois, o chamado de Deus, deixou o conforto do lar para abraçar a pobreza do "São Manuel" dos anos vinte, à qual se adaptou com serena alegria.
Vocação amadurecida, soube fazer seu noviciado, consciente da importância dessa etapa da formação inicial. Professo, assumiu a responsabilidade de seus votos. Colocou·se, obediente, à disposição da Congregação, consagrando·lhe, sem reserva, serviço e vida. Casto a toda prova, suas palavras, ações e atitudes ressumavam maturidade afetiva, sempre envolta no sorriso cativante que lhe freqüentava os lábios, na nobreza que sempre lhe acompanhou o relacionamento com o próximo. Pobre voluntário, prestava conta de toda administração, pequena que fosse, sem jamais fazer concessões a pequenos teres, pouco compatíveis com a renúncia evangélica.
O homem de Deus, a Quem muito amou e muito fez amar, jamais menosprezou as pequenas estruturas de uma piedade filial, constantes das Constituições e Regulamentos de sua Congregação Salesiana.
Educador, viveu o Sistema Preventivo de Dom Bosco, tornando·se formador de homens, formador de cristãos. Como lhe queriam bem os jovens! Como todos lhe queriam bem!
Sacerdote zeloso, viveu o chamado de Deus "pro hominibus". Pregador de palavra fácil e convincente, era muito procurado para retiros espirituais, tríduos etc. Dedicava horas ao confessiondrio. A todos atendia com abnegação, causando admiração que tanto fizesse com saúde tão pouca.
Fez, deveras, bem tudo o que devia fazer (cf. Mc 7,37). Sempre com encantadora modéstia, avessa a falar de seus estudos, do seu trabalho e de si próprio.
Os contemporâneos viam nele uma grande esperança para a Congregação e para a Igreja, dotado que era de sólida formação intelectual, virtude e zelo, condições para incontestável liderança, que ele saberia exercer com firmeza e tato.
Deus entretanto o quis vítima. Grande no apostolado pequeno (aos olhos dos homens). De poucos meses, numa casa de formação; de poucos anos, doente, em São José dos Campos e cidades vizinhas. 0 suficiente para deixar marcas profundas em quantos desfrutaram a influência de sua ação e, mais ainda, de sua presença salesiana e sacerdotal.
Insistimos: o Pe. Álvaro · exemplo de vocação realizada · bem que merecia uma biografia, até mais ampla. Possam estas poucas páginas recordá·lo aos que o conheceram, e edificar os que agora o conhecem.
Uma família cristã
Às 7 horas da manhã do dia 4 de setembro de 1909, nasceram, na cidade do Rio de Janeiro, Álvaro e Nélson. Os pais receberam os gêmeos como presente das mãos de Deus, pois, havia menos de um mês, falecera o primogênito do casal, também chamado Álvaro.
Dr. Alberto Biolchini, o pai, era homem de fé profunda, dotado de grande retidão de caráter e excepcional capacidade de trabalho. Sabia impor·se aos filhos com um simples olhar, partilhando com a esposa a responsabilidade de educá-los.
Esposa e mãe exemplar, D. Lily Smith Biolchini não media forças para ajudar o marido, principalmente nos primeiros anos de vida conjugal. Faleceu prematuramente, aos 38 anos de idade, deixando oito crianças na orfandade: seis meninos e duas meninas (Álvaro, Nélson, Luiz, Cesar, Lily, Alberto, Paulo e Lia).
Deus não permitiu que elas ficassem privadas do carinho materno e lhes enviou uma segunda mãe na pessoa de D. Maria da Glória Nogueira da Gama, que, aliás, mantinha com a falecida laços de profunda e sincera amizade. D. Nenê, como todos lhe chamavam, fora professora de cinco futuros enteados e acolhera em sua própria casa a filha mais moça do casal amigo, durante a última enfermidade da mãe.
Estas três figuras - pai, mãe e mãezinha - marcaram profundamente o caráter de Álvaro.
Os gêmeos
Como geralmente acontece com os gêmeos, Álvaro e Nélson eram muito parecidos, a ponto de causarem confusão às pessoas que lidavam com eles. Álvaro, porém, era mais alegre e expansivo, como a mãe. Nélson, mais sério e concentrado, como o pai.
Uma vez, em aula, a professora chamou um deles à sua mesa e mostrou·lhe os erros a serem corrigidos na lição escrita. Assim que a professora terminou sua explicação, o menino (era Álvaro) disse, com sua vozinha cantada, apontando para o irmão: "Não fui eu, foi ele!. . . ".
Brincavam um dia no escritório do pai, quando o viram aproximar·se acompanhado de um sacerdote. Por demais tímidos, e não tendo por onde escapar, esconderam·se embaixo da secretária, e ali permaneceram imóveis durante muito tempo, até que um ligeiro movimento denunciou·os ao visitante, que achou muita graça do estratagema e se admirou da paciência de meninos tão pequenos.
No período da infância e adolescência é quase impossível separar os gêmeos. Começaram ambos a estudar aos cinco anos, no pequeno colégio particular da futura "mãezinha". 0 colégio ficava perto de casa, de modo que os irmãos podiam ir sozinhos. Mostraram·se sempre muito corretos e cumpridores de seus deveres. Estudaram também um pouco de piano.
D. Maria da Glória preparou·os para a Primeira Comunhão, que fizeram com outros coleguinhas, entre eles o irmão Luiz, no dia 15 de agosto de 1918. A cerimonia realizou·se na igreja da Imaculada Conceição, na praia de Botafogo. Alvaro, neo·sacerdote, fará questão de celebrar aí sua Primeira Missa.
Foi em 1928 que os gêmeos se separaram pela primeira vez, para seguirem suas vocações. Nélson fazia o curso de direito. Alvaro, que prestara, com resultado satisfatório, um exame de habilitação para uma casa bancária, resolvia agora ser sacerdote salesiano. O Dr. Alberto terá dito, então, ao diretor do Banco: "Meu filho Alvaro não poderá mais apresentar·se, mas tenho um outro filho igualzinho a ele. Quer experimentar?". E Nélson começou a trabalhar.
Uma alma boa
Alvaro "recebera em partilha uma alma boa", como diz o livro da Sabedoria (8,19). Crescia aplicado ao estudo, embora nem sempre alcançasse as melhores notas, por ser um pouco tímido e nervoso.
Não era um menino travesso. Nem por isso deixava de ser criança, como demonstrou ao tomar parte ativa, em companhia de Nélson e Luíz, no enterro de uma galinha viva...
A família ia aumentando, e Álvaro, sempre carinhoso com os irmãos menores, ajudava a mãe a cuidar dos pequenos e apaziguar as brigas dos maiores. Distinguia·se pela docilidade, obediência e desprendimento. Cedia de boa vontade brinquedos, gulodices, tudo, enfim que é motivo de caprichos para as crianças. Era também muito cuidadoso com seus pertences e roupas. Trazia tudo em ordem e auxiliava os outros, Essa ordem e doação serão características de sua vida toda.
No Santa Rosa
Em fevereiro de 1920, Álvaro e Nélson foram matriculados no internato do Colégio Santa Posa de Niterói, onde o pai também tinha sido educado. Aí fizeram os estudos secundários, sempre com muita aplicação e bom comportamento.
Os anos da adolescência, vividos sob a direção de Dom Bosco, terão Influído em seu desejo de se tornar salesiano.
0 ponto mais critico da doença da mãe coincidiu com as férias escolares (1923·1924). Estavam todas as crianças em casa. Duas enfermeiras cuidavam da doente, mas a ordem doméstica era mantida pelos gêmeos, uma vez que as empregadas andavam sempre atarefadas. Eles é que faziam as compras e saíam com os irmãos menores para diminuir o barulho â volta da mãe enferma.
Poucos dias depois de voltarem ao colégio, deu·se o triste desenlace, em 19 de fevereiro de 1924. Foram então chamadas as crianças para se despedirem da mãe. Álvaro e Nélson fizeram questão de passar a noite toda no velório. Não tinham ainda quinze anos.
"Mãezinha"
Cônscio de suas responsabilidades e sempre como Diretor geral de uma Secretaria de Estado, Dr. Alberto, dia 26 de julho de 1924, casou·se em Petrópolis com aquela que seria a "mãezinha" de seus filhos. Durante a cerimônia, toda a família comungou. Assistiu o matrimônio um grande amigo da família, Dom Helvécio Gomes de Oliveira, salesiano, arcebispo de Mariana.
Álvaro continuou a ser, como enteado, o mesmo modelo de docilidade e compreensão, demonstrando sempre muita afeição e gratidão à mãezinha. Meses antes de falecer, escreverá uma linda carta à "mãezinha que soube encher o vazio de nossos corações com o carinho de verdadeira Mãe!".
Um padrinho de fato
Foi padrinho do irmão Ary, o primogénito do segundo matrimônio de seu pai. Sempre muito carinhoso para com ele, escrevia·lhe com freqüência.
" ( ... ) Não sei se te lembras do Papa que te fez carícias no Vaticano ( ... ). Grande satisfação tive ao saber que já és congregado. De agora em diante Maria Santíssima terá grandes desvelos para contigo. Ela te auxiliará para que cumpras exemplarmente todos os teus deveres de cristão, de filho, de aluno e de congregado. ( ... ).
Vi pela fotografia ( ... ) que estás quase da altura de papai. Procura chegar também à altura de suas virtudes."
"Dou·te os parabéns mais sinceros pela tua aprovação nos exames para a Escola Naval. ( ... ) Procura
ingressar nele (gênero de vida) com a reta intenção de fazer a vontade de Deus e de trabalhar sempre para te conservares bom como és agora. ( ... ) Não te unas com os que fazem alarde de libertinagem. Esses nem serão bons patriotas, pois não têm a força moral de enfrentar a realidade da vida com suas irresponsabilidades. Continua, principalmente, a amar muito tua família, teu lar, e sempre que puderes procura voltar ao calor do amor materno, à amizade dos teus irmãos."
Quando Ary terminou, com brilho, o curso da Escola Naval, o Pe. Álvaro, já em seus últimos dias de vida, escreveu·lhe: "( ... ) Agradeço·lhe, querido Ary, o bom exemplo que me deu, agradeço principalmente a honra que você acrescentou ao nome da nossa família e ao já celebrado nome dos Nogueira da Gama" ( ... ).
No "Xaverien's Brothers"
Os dois irmãos concluíram o curso secundário em 1924. 0 pai pretendia mandá·los à Europa para estudarem melhor e praticarem as línguas estrangeiras. Também para se tornarem mais desembaraçados.
Escolhido, em 1925, para fazer parte de uma Comissão do Governo para trabalhos de assunto ferroviário, em vários países da Europa, Dr. Alberto resolveu levar toda a família consigo.
Partiram, em julho, diretamente para Londres. Depois de algumas ponderações sobre a escolha do colégio para os meninos, ficou resolvido que entrariam para o Institut St. François Xavier" ou "Xaverien's Brothers", colégio inglês em Bruges, norte da Bélgica. Esse colégio mantinha filiais também em Londres e outras cidades, mas o da Bélgica, ensejar·lhes·ia a possibilidade de praticar igualmente o francês e o inglês.
Aí estudaram durante dois anos. Nos vários períodos de férias, encontravam·se com a família em diversos lugares. Em dezembro de 1925, estiveram todos juntos em Roma, onde participaram do Ano Santo.
Foram recebidos pelo Papa Pio XI. S. Santidade, a quem não passou despercebida a numerosa família, dirigiu algumas palavras de congratulações ao Dr. Alberto e acariciou os dois menores: Lia, de cinco anos, e Ary, de seis meses!
Após visitar algumas cidades da Itália e percorrer parte da Suíça, os quatro irmãos mais velhos voltaram ao colégio de Bruges, onde permaneceram mais um ano apôs o regresso da família ao Brasil.
Era, então, Álvaro, o mais comunicativo, quem escrevia em nome dos irmãos, para dar notícias. Por sua parte, o pai também dirigia·se de preferência a ele para todas as deliberações, remessas de dinheiro etc.
Os quatro irmãos passaram o primeiro período de ferias no colégio que a Congregação mantinha em Londres. No segundo período, de menor duração, estiveram em Bruxelas, em casa de uma família amiga. Nas férias maiores, foram para Nice, no sul da França, recomendados a uma tia do Dr. Alberto, que aí residia. Nessa ocasião, foram convidados para ir a Turim, a fim de conhecer a Casa·Mãe dos salesianos. Muito bem recebidos, passaram dias felizes na cidade de Dom Bosco. Visitaram OuIx e arredores, nos Alpes. Voltaram depois ao colégio para o último período de aulas. Terminados os estudos, regressaram ao Brasil, passando, antes, pela França, onde visitaram Lourdes.
O chamado de Deus
No Brasil encontraram mais um irmãozinho, Décio. Foram recebidos com muita alegria. A casa fora amplia (ia para que os quatro rapazes pudessem ficar bem â vontade em seus quartos e sala de estudo.
Álvaro, sempre muito piedoso, edificava a todas as pessoas que o encontravam na igreja, por sua atitude recolhida e fervorosa.
Em companhia de Nélson, ingressou na Congregação Mariana do Colégio Santo Inácio. Preparou·se, no Ginásio São Bento, para dois exames preparatórios que ainda não havia prestado. Pensou também em cursar medicina, mas desistiu. Estava aguardando a nomeação para uma casa bancaria, onde fora aprovado no exame de seleção, quando ouviu o chamado de Deus.
Um retiro decisivo
Decidiu·se ao "sim" no silêncio e na oração. Num retiro espiritual em Friburgo (RJ), feito com grande seriedade. Conquanto fosse grande o entusiasmo em se tornar sacerdote, lutas e dúvidas transparecem nas notas de sua caderneta. Pedia luzes ao Espírito Santo, implorava o auxílio de Maria Santíssima e ouvia o conselho do confessor. Finalmente decidiu se. Entre as resoluções tomadas no retiro, lê·se em primeiro lugar: "Faço o propósito de entrar para uma Congregação Religiosa, se possível a Salesiana". Além dos propósitos a caderneta contém pequeno resumo das pregações desse retiro decisivo.
Partiu para Lavrinhas (SP) uma semana depois de ter pedido licença ao pai, que não opôs nenhum obstáculo â decisão do filho. Jamais esqueceu as palavras paternas: "Pense bem no que você vai fazer, porque eu não desejaria que mais tarde você voltasse atrás".
Chegou ao aspirantado dia 17 de maio de 1928, deixando em casa um grande vácuo, pois era muito querido. Tinha dezoito anos. 0 experimentado diretor, Pe. André Dell'Oca, acolheu·o compreensivo, descobrindo logo o rico presente que Deus oferecia à Corgregação Salesiana.
Aspirante e noviço exemplar
Os contemporâneos do aspirante recém chegado podem aquilatar as lutas que houve certamente que enfrentar para adaptar·se à pobreza daquela casa de formação. 0 contraste entre sua fina educação, delicadeza ele trato e experiência acumulada em estudos sérios e viagens pela Europa, e a convivência com jovens me nos maduros devo, ter chocado o expansivo carioca, como é fácil imaginar. Entretanto, na opinião unânime dos colegas, Álvaro foi sempre um jovem alegre, comunicativo, armado de rim sorriso contagiante.
Em pouco tempo pôde acompanhar normalmente as aulas de latim, ao lado de colegas que há mais tempo o vinham estudando. Nos meses de aspirantado, preparou-se seriamente para a vestidura clerical que precedia a entrada para o noviciado. A cerimônia não era para ele uma simples formalidade. Tinha para ele a importância que teve para o jovem João Bosco, que ao receber a batina disse de si para si: "Meu Deus, que eu comece deveras uma vicia nova, segundo a vossa vontade".
0 fervoroso noviço anotava os conselhos dos superiores e mestres e comprometia·se a segui·los fielmente.
Punha por escrito os propósitos, e sobre eles examinava·se com lealdade nos dias de retiro mensal. Não perdia palavra das conferências e aulas. Como sempre, tudo enfrentava com seriedade e alegria. Participava dos jogos durante o recreio com o entusiasmo de quem cumpre um dever. "Era uma criatura expansiva · lembra um colega ·, muito ativa, dinâmica e quase diria de uma inocência singular; de família de posses, nada nele transpirava superioridade. Um ótimo colega." Outro colega sorri: "Tornou·se o mais célebre da turma em quebrar copos e pratos". Não estava habituado, por certo, a tais misteres.
Poderíamos dizer, numa palavra, que Álvaro fez o noviciado. Como o fez outro colega também falecido prematuramente, o saudoso Pe. Francisco Gonçalves de Oliveira.
Salesiano de Dom Bosco
Assim foi que, ao fim do ano de noviciado, pôde emitir os votos religiosos temporários, plenamente consciente do passo decisivo que dava. Escreveu em suas notas:
"Hoje, 28 de janeiro de 1930, tive a felicidade de emitir minha Profissão Religiosa. Pedi ardentemente a Jesus e a Maria que me tirassem deste mundo se eu tivesse de ser infiel à minha vocação. Parece·me ter sido ouvido".
Entre os propósitos feitos depois da profissão, encontramos o seguinte: "Renovar os Santos Votos todos os dias na Comunhão". Desde então acrescentou ao nome de batismo o de Francisco, tomando como patrono São Francisco de Sales.
0 novo salesiano levou toda a sua alegria, generosidade e seriedade para os anos de "filosofia". Dedicou·se intensamente, como sempre, aos estudos. Os que privaram da amizade do Pe. Álvaro lembram a cultura que revelavam suas conversas, a precisão de palavras, que traduziam precisão de idéias. Sem dotes granjeavam·lhe admiração e simpatia. Soube usá·los com simplicidade na vida comunitária e no fecundo apostolado.
Os estudantes de filosofia eram aconselhados a fazer, em determinados dias, no recreio que se seguia ao jantar, os chamados "circules de piedade". Grupos de colegas discorriam sobre um tema espiritual. Era um recurso para mais assimilarem as exigências da própria vocação. Escreve um companheiro: "Foi o melhor colega nos círculos de piedade".
Para que se não perca migalha, é bom lembrar que na mesma ocasião em que Álvaro e colegas emitiam a primeira profissão, em, Lavrinhas, fazia·a perpétua o Servo de Deus Pe. Rodolfo Komorek.
No "São Joaquim" de Lorena
Completados em Lavrinhas os estudos filosóficos. o clérigo Álvaro foi, em 1932, enviado para o Colégio São Joaquim de Lorena. Começava para ele o período chamado "tirocínio prático", de três anos, hoje dois, situado entre os estudos de filosofia e os de teologia.
Deixou aí, como em toda a parte, as melhores impressões. Nos co·irmãos e nos alunos.
Testemunha um colega de noviciado e de ordenação: "Tive a sorte de fazer o tirocínio com ele em Lorena (1932·1935). Foi uma das épocas mais difíceis do Ginásio. Álvaro assumiu a divisão dos médios, a mais difícil naquele tempo. Depois de nus seis meses, o Pe. Inspetor, André Dell'Oca, disse numa 'boa·noite' que o Ginásio de Lorena era o melhor da Inspetoria, no estudo, na disciplina e na piedade. E eu pensei: não terá sido fruto da santidade do assistente Biolchini? Não me lembro de ter visto um assistido dele de castigo, Eu, ao contrário, fiquei com a fama de mestre de canto (de colocar de castigo no canto!). Os meninos adoravam seu assistente. Eu o admirava".
Em 1932, irrompeu em São Paulo a Revolução Constitucionaliza. Combates entre revolucionários e forças legais ao Governo do Rio de Janeiro ameaçavam a região do Vale do Paraíba. Os aspirantes e estudantes de filosofia de Lavrinhas, mais o que restava dos internos em Lorena, transferiram·se para o Liceu Coração de Jesus, em São Paulo, que lhes abriu generosamente as portas. No Liceu, o clérigo Álvaro continuou a dar largas ao seu ser salesiano. Assistia, lecionava, estava sempre entre os jovens, organizava para os alunos dos três colégios jogos de barra, que para muitos constituíam novidade. Assim agiria Dom Bosco, assim devia agir ele também.
Entre os alunos, encontrava se também um de seus irmãos mais moços, Paulo, que, em 1934, cursava o 5.11 ano ginasial. Foi ele que escreveu ao pai, em meados desse ano, que o clérigo Álvaro parecia estar muito cansado. Dr. Alberto, o pai, dirigiu·se por carta ao padre superior, pedindo·lhe que o mandasse submeter·se a um exame medico, tanto mais que seu irmão gêmeo fora acometido de grave afecção pulmonar. Os exames nada constataram de grave, mas os superiores julgaram mais prudente enviá·lo à casa de Cachoeira do Campo (MG), onde o clima e o repouso fizeram·no recuperar a saúde.
De volta a Lorena, emitiu os votos perpétuos, em 13 de janeiro de 1935.
Deixou lembranças profundas de sua passagem pelo São Joaquim. Anos depois, voltando ao seu colégio para as comemorações das bodas de ouro sacerdotais do venerando Pe. Artur Castels, escrevia â irmã, em 15 de fevereiro de 1944:
"Depois de amanhã vamos celebrar aqui no Ginásio São Joaquim as bodas de ouro sacerdotais de um de nossos padres. E eu tenho uma alegria especial por causa do seguinte fato ( ... ). Quando fui para São José dos Campos e tive a crise que quase me levou para a eternidade, esse sacerdote, já idoso, entre lágrimas, na Santa Missa, ofereceu sua vida em troca da minha. Comecei a melhorar, e agora tenho a felicidade de estar a seu lado; por sua vez, ele parece rejuvenescido e promete ainda longa vida. Assim Deus recompensou·o pelo seu heroísmo".
Estudante de teologia
O Instituto Teológico Pio XI iniciou suas atividades em 1931, no bairro do Chora·Menino, que depois passou a chamar·se Santa Teresinha, na zona norte da capital paulista.
Instalado na chamada "Chácara do Liceu', propriedade que era do Liceu Coração de Jesus, o Instituto dispunha aí de um, ambiente tranqüilo, entre granjas, pomares, hortas e arvoredos, muito apropriado à concentração e ao estudo. Para que os alunos do Liceu pudessem viver horas alegres, a chácara era dotada de ótima piscina, de campos de futebol e outros esportes. Todas as semanas Ia compareciam duas das quatro "divisões" de internos. Durante a semana e aos domingos, toda essa estrutura ficava à disposição de florescente Oratório Festivo, freqüentado por centenas de meninos do bairro e adjacências. Os 11teôlogos'1 dedicavam·se a eles, sobretudo nos domingos e feriados. 0 Liceu havia erguido no terreno uma igreja em honra de Santa Teresinha, um ex·voto de agradecimento à santinha de Lisieux, por haver poupado o colégio de ser atingido pela artilharia do quartel de Santana, que, na chamada Revolução de 1924, bombardeava o Palácio do Governo, nos Campos Elísios, a poucos metros de distância. Com a presença dos estudantes de teologia, a igreja tornou·se um grande centro de vida cristã. Servia à população do bairro e recebia precioso atendimento de professores e alunos do Instituto. Nas lindas liturgias, ouviam·se excelentes execuções musicais, enriquecidas algumas delas com a participação de um bom coro de meninos do Oratório. 0 Instituto Pio XI viveu em Santa Teresinha uni período feliz, embora instalado precariamente em velho prédio: "paupérrima casa, onde tudo faltava, exceto as goteiras", sorri um ex·aluno.
Álvaro, que jamais se lamentou, parecia irradiar felicidade. Deu. largas ao seu zelo, dedicando·se com entusiasmo à formação cristã de meninos pobres. Conserva·se uma caderneta em que ele anotava conselhos, historietas, anedotas etc. para alegrar e ao mesmo tempo instruir seus oratorianos.
Como sempre, assumiu com responsabilidade esse novo período de formação. Se viveu um sacerdócio fecundo e edificante, foi também porque para ele se preparou cuidadosamente.
No Alto da Lapa
Em 1937, o Pe. André Dell'Oca, criador do Instituto Teológico Pio XI no Alto de Santana, transferiu·o para o Alto da Lapa. No edifício recém·inaugurado (hoje uma das três alas existentes) iniciaram seu estudos oitenta estudantes das, então, três inspetorias brasileiras.
Com renovado fervor o clérigo Álvaro viveu aí os dois anos que ainda faltavam para sua ordenação sacerdotal. Consciente da necessidade de intensa preparação, procurava socorrer·se das orações da família e dos amigos.
"Preciso preparar·me bem para receber o Subdiaconato em dezembro. É a primeira ordem maior e traz consigo novas obrigações."
"Como vêem, estou atingindo o cume da montanha sagrada,( ... ) por isso, mais uma vez, com insistência lhes peço que rezem por mim e façam rezar ( ... ) para que Nosso Senhor me dê o que ainda não tenho, ou melhor, para que eu me esforce por conseguir o que me falta."
É a tônica de suas cartas nesse período. Foram ordenados cinqüenta e oito subdiáconos, dos quais, quarenta e cinco salesianos! Era 18 de dezembro de 1937.
Assistente
Nesses tempos distantes, os estudantes de teologia tinham um colega do quarto mo, que fazia de assistente, com a incumbência de agilizar o dia·a·dia do Instituto. Tendo em conta a opinião dos colegas, os superiores o escolheram para este serviço.
No seu terceiro ano (1937), ele havia continuado a trabalhar no Oratório Festivo de Santa Teresinha. Ao comunicar aos país a nova função no Instituto, acrescenta: Para cumprir com minhas novas obrigações tive que deixar, com grande pesar, o Oratório de Santa Teresinha, depois de três anos de convívio com aqueles meninos".
Diácono
No dia 12 de março de 1938, recebeu o Diaconato. À cerimônia estiveram presentes os pais, Nélson e sua esposa Estela, e o irmão Ary.
0 novo Diácono foi ajudar nu funções da Semana Santa no Liceu Nossa Senhora Auxiliadora, de Campinas. "Pela primeira vez dei a Comunhão! Não imaginas com que emoção subi ao altar para desempenhar essa função. ( ... ) Pela primeira vez fiz sermão; o assunto me foi de muito agrado: falei sobre Maria Santíssima, e assim coloquei sob sua tutela as primícias do meu apostolado sacerdotal".
Sua preparação para a ordenação sacerdotal é cada vez mais intensa: "( ... ) para quem há dez anos vem suspirando por esse momento, sete meses é uma insignificância, ( ... ) estou convencido de que muito me resta * fazer; por isso suplico·te que rezes muito por mim e me recomendes às orações de muitas outras almas piedosas".
E ainda: "No dia 17 deste, completam·se dez anos que saí de casa. Finalmente já estou para atingir a meta tão suspirada. Graças a Deus e a N. Senhora Auxiliadora, pude superar as não poucas dificuldades que semearam esses longos dez anos. ( ... ) cada vez mais me convenço de que sozinho não me será possível preparar·me convenientemente. Por isso, peço·lhes que rezem muito por mim".
Com os familiares
Mesmo longe de casa, Álvaro acompanhava os acontecimentos mais importantes de sua família. Fazia·o com vivo interesse, como o demonstram suas belas e afetuosas cartas aos pais, a cada um dos irmãos, a parentes e amigos, nas diversas circunstâncias, fossem elas alegres ou dolorosas. Suas cartas eram muito espontâneas, simples mas profundas. Sabia dizer a cada um a palavra adequada para elevar o espírito às coisas de Deus.
Em fins de 1936, a família deixou Copacabana e foi residir na Praça Paris. Dr. Alberto, que já se aposentara, foi obrigado, por motivo de saúde, a deixar os demais trabalhos. Mas, com sua habitual energia, não se deixou abater. Ocupava o tempo com viagens, excursões, empreendendo reformas nas casas ou fazendo novas construções. Álvaro, que dedicava ao pai profunda veneração, pedia a Deus que lhe conservasse a preciosa existência: "Pedi a Deus a saúde dele; todos os salesianos de aqui estão também rezando pelo seu restabelecimento ( ... )".
Recebia com alegria as notícias do aumento da família, corri a chegada de novos sobrinhos. Essa alegria derrama·se carinhosamente em suas cartas. Nelas mostra sua preocupação com a vida espiritual dos irmãos, às vezes UM tanto descuidados de suas obrigações religiosas. Notável a carta de 20.06.38 dirigida aos três irmãos. Assim termina: "Olhem! em dezembro próximo, se, Deus quiser, irei celebrar a minha Primeira Missa aí;
Nessa ocasião quero abraçá·los todos bem dispostos e bem encaminhados. Como vai papai? Creio que não e necessário aconselhar·lhes que procurem dar·lhe todas as satisfações possíveis e que ele merece. Desta vez vocês são obrigados a me responder; gastei quase uma hora cem esta; espero que seja correspondida ao menos com uma palavra: fiz a Páscoa. Posso contar com isso? ( ... )".
Morre o irmão
Grande sofrimento atingiu·o durante o último mo de teologia. Apesar de todos os recursos médicos e da dedicação sem limites de sua jovem esposa, Nelson, o gêmeo inseparável, velo a falecer dois anos depois de casado. Álvaro muito sofreu, mas consolou·se ao saber que o irmão recebera os Sacramentos com piedade, e aceitam com resignação seus sofrimentos.
"O sofrimento de Nélson, escrevia, foi para mim um doloroso, principalmente por ser inesperado. ( ... ) devo ser o primeiro a me resignar com a santa vontade de Deus. Papai! eu lhe peço que não se aflija demasiado com este duro golpe; se eu o amava muito, agora procurarei amá·lo duas vezes mais, para substituir o afeto de Nélson."
O irmão querido não estaria presente a sua ordenção sacerdotal! . . .
Sacerdote para sempre
Em virtude do delicado estado de saúde do pai, a ordenação sacerdotal do filho se realizaria no Rio de Janeiro.
Seria ordenante Dom Helvécio Gomes de Oliveira, que havia batizado e crismado quase todos os filhos de seu grande amigo, o Dr. Alberto. Inesperadamente houve de submeter·se a uma intervenção cirúrgica, em novembro, ficando impossibilitado de atender ao convite.
Como Dom Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro , ia conferir a ordenação sacerdotal a um candidato da sua arquidiocese, no dia 8 de dezembro, solicitou-lhe a família que ordenasse também 0 candidato salesiano. Dom Leme, grande coração, acedeu prontamente: "Sinto apenas que esse novo sacerdote não seja para a minha arquidiocese".
Houve muita alegria em família na fase de preparação. Todos queriam contribuir para o brilho da cerimônia. Uma das irmãs quis fazer o paramento para o grande dia. Álvaro aceitou os presentes com o espírito de pobreza e desapego que sempre o caracterizaram.
Em 8 de dezembro de 1938, festa da Intimidada Conceição, no mesmo dia e hora em que eram ordenados em São Paulo seus colegas de turma, o diácono Álvaro mais o candidato diocesano tornavam·se "sacerdotes para sempre".
É fácil imaginar o que passou na alma do neo·sacerdote nesse dia inesquecível. 0 sonho longamente acalentado era agora feliz realidade. 0 contato com Deus que dia a dia se fora tomando mais estreito, tomou·se mais intenso e íntimo. Afinal não as preparara devidamente para o grande dia? Não era agora apenas um servo, era o amigo de Cristo, que o fizera participante feliz de seu sacerdócio eterno.
Para ele, porém, seriam proféticas as palavras de Mamãe Margarida dirigdas ao filho João Bosco, recém·ordenado: "Lembra·te de que começar a dizer missa é começar a sofrer". Foi de fato para o Pe. Álvaro o início de prolongado martírio físico a que se vieram juntar não poucos sofrimentos morais.
Missas novas
No dia seguinte, o neo·sacerdote celebrou sua primeira missa na igreja dedicada à Imaculada, na praia do Botafogo, onde fizera a Primeira Comunhão. Toda a família estava reunida em torno do altar. Muitas as comunhões. 0 irmão e afilhado Ary e o primo Jorge serviram de coroinhas. Foram padrinhos o Pe. Orlando Chaves, mais tarde arcebispo de Cuiabá, e o Almirante Manoel José Nogueira da Gama e esposa.
Nos dias passados com a família, religiosas e sacerdotes amigos convidaram-no para celebrar em suas capelas e igrejas. Sucediam-se destarte as missas novas. Com a mesma alegria, com o mesmo fervor.
Os salesianos de Niterói fizeram questão de que a primeira missa solene do ex-aluno fosse celebrada no Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora, dia 1o. de janeiro de 1939. Após a missa, houve um café festivo, seguido de uma homenagem ao neo·sacerdote.
Novamente em Lavrinhas
Terminados os estudos de teologia, o neo·sacerdote voltou com renovado entusiasmo ao trabalho. Foi destinado ao Colégio São Manoel de Lavrinhas, a casa onde iniciara sua vida salesiana. Coube·lhe o cargo de Conselheiro Escolar, isto é, encarregado dos estudos e da disciplina. Aceitou·o com espírito de fé e obediência. Foi, na realidade, um conselheiro como poucos o foram. Vivia o Sistema Preventivo de Dom Bosco, impondo·se aos jovens pela delicadeza de modos, pela sinceridade de atitudes, pela virtude.
Confidenciou a um colega sacerdote, ainda no início do mo escolar, ter a impressão de que os meninos se mantinham um tanto distantes. 0 fato era explicável: toda mudança de pessoas provoca mudanças no relacionamento. O colega, que bem o conhecia, tranqüilizou·o: "Não se preocupe. Deixe que Os meninos 0 conheçam melhor". Não tardou que eles o procurassem nos recreios, tomassem grupos ao seu redor, ouvindo·lhe as palavras repassadas de erudição, coloridas de risadas gostosas, aprendendo do exemplo do mestre. Os aspirantes passaram a procurá·lo em seu escritório, onde eram atendidos com carinho, com nobreza, diríamos, e respeito. Lembra alguém que alguns meninos chegavam a "relaxar" propositadamente, para que o assistente os endereçasse ao bondoso Conselheiro...
Sabia que Dom Bosco misturava·se aos jovens em seus brinquedos e recomendava aos seus salesianos que procurassem "gostar do que eles gostam". Apesar de não gozar de muita saúde, corria no pátio com seus meninos, animava os jogos... Ao término do recreio, era visto cansado, enxugando com o lenço o suor do rosto afogueado. Assistia os meninos que se lavavam antes de voltar às aulas, postando·se num pequeno patamar, exposto à corrente de ar que penetrava pela porta aberta entre o pórtico dos aspirantes e o dos estudantes de filosofia...
A doença
Vida tão intensamente vivida, de tamanha doação, só podia consumir·se rapidamente. Antes de completar um ano de ordenação, o Pe. Álvaro caiu gravemente enfermo, a ponto de se pensar que já não haveria esperança de cura. Após violenta hemoptise, dias depois, em 17 de outubro de 1939 foi transportado para a casa de repouso conhecida como "Residência Salesiana em São José dos Campos, onde outros sacerdotes e clérigos tentavam curar-se do mesmo mal.
Submetido a rigoroso tratamento de pneumotórax e a repouso absoluto (era o que a esse tempo podia a medicina indicar), foi "alcançando de Deus melhoras lentas mas; seguras" como escreveu à família. Doía·lhe não poder celebrar a santa missa nem se dedicar ao apostolado sacerdotal. "Muitas vezes por dia me lastimo com Nosso Senhor, e lhe pergunto: 'Até quando, Senhor? Por que me exilastes; do vosso altar'?"
Os meses transcorriam, monótonos na Residência. As melhoras eram muito lentas, mas suficientes para que pudesse escrever, em setembro de 1940: "Eu vou bem, graças a Deus. Continuo a celebrar a Missa, sem inconvenientes". 0 trabalho, porém, não lhe era permitido.
Alegrias e tristezas
Suas cartas por esse tempo revelam sentimentos de admirável nobreza. Nelas é possível entrever, vez por outra, algumas provações que muito deviam atormentar uma alma sensível como a soa. "Pedirei a N. Senhor ·escreve a irmã · que te =pare para que possas continuar o apostolado da Ação Católica com grandes resultados. Assim salvarás almas por mim, que estou impossibilitado de trabalhar. ( ... ) Nosso Senhor me tem provado bastante, não só pelo lado físico, mas também pelo lado moral. E se Ele já me concedeu subir ao Tabor das consolações, agora me está levando ao Getsêmani das amarguras. Feliz de mim, que sou alvo dessas visitas divinas, mas isso não impede que eu sofra muito e passe horas amargas." Há mistérios que só podem ser desvendados na sua inteireza por quem viveu determinados contextos de lugares e pessoas, sofrendo talvez da mesma enfermidade que exilou sonhos e entusiasmos na Rua Guilhermino, 11, numa São José dos Campos que ainda não era a progressista cidade industrial de nossos dias. Nem todos sofrem que lhes façam sombra...
Os doentes sentiam·se felizes ao receberem visitas. Não eram freqüentes. Metia medo uma doença então quase sem cura, o contagiosa... Ficavam muito agradecidos aos que ao medo antepunham a caridade e a amizade.
Depois de uma visita dos pais, em meados de 1940, o Pé. Álvaro escreveu·lhes: "Quero agradecer·lhes de todo o coração as horas felizes que me proporcionaram com sua visita. Tenho dado graças a Deus por me ter concedido pais tão carinhosos e, principalmente, tão piedosos, pois estou convencido que grande parte do afeto que me consagram é por verem em mim, mais que um filho, uni ministro de Nosso Senhor".
Às alegrias misturavam-se tristezas. No dia 8 de dezembro de 1940, o Dr. Alberto e D. Nenê fizeram profissão na Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. Escreveu-lhes feliz o Pé. Álvaro: "( ... ) Dentre as muitas consolações que Nosso Senhor me tem concedido ultimamente, não é das menores essa de ver meus pais distinguidos com o hábito do Carmelo, como fiança de que um dia serão recebidos no Céu pela Mãe de Deus".
Dois meses depois, nova provação e der. Paulo, o irmão de vinte e um, anos, faleceu, em 11 de fevereiro de 1941. 0 Pe. Álvaro acompanhou de longe a grave doença do irmão, preocupado com o sofrimento do pai já doente e com a preparação do irmão para o encontro com Deus. Não podendo ir ao Rio, providenciou um sacerdote da casa salesiana do Riachuelo para que fosse assistir o irmão. A graça de Deus trabalhou. Paulo recebeu os sacramentos. À pergunta da irmã se estava contente, respondeu: "Estou muito contrate", Era para dar graças a Deus. A transformação espiritual do irmão muito preocupava o Pe. Álvaro e a família.
Algum trabalho
"No meu descanso forçado, lembro·me dos que trabalham. Se não posso oferecer o holocausto do trabalho, ofereço o holocausto da resignação, da oração."
Quando pôde fazer alguma coisa, compreendeu mais o que Deus espera do apóstolo: "Quão longe ainda estou da perfeição necessária ao sacerdote que quer fazer algum bem às almas. Muito necessito dos auxílios da graça para não destruir com meus defeitos a obra que Deus vai levantando nas almas que encontro na minha jornada sacerdotal".
Ao experimentar alguma melhora de saúde, pôde dar largas ao desejo incontido de trabalhar. Encarregou·o o inspetor de algumas traduções e adaptações (de modo que minhas horas já são curtas"). Foi nessa época que escreveu a biografia do fundador da Obra Salesiana, no Brasil, Dom Luís Lasagna, publicada em três fascículos das 'Leituras Católicas".
Pouco a pouco foi aceitando, com alegria, outros encargos: capelania da Santa Casa, aulas particulares e depois na Escola Normal, pregação de retiros e horas a fio passadas no confessionário, onde se revelou um verdadeiro apostolo.
Dedicou·se com muito empenho à Obra dos Cooperadores Salesianos, Incrementou a Pia União local e fundou outros centros nas cidades vizinhas.
Sua bondade e zelo colocou o em contato com muitas pessoas. Quando, em outubro de 1941, pai, maezinha e irmã passaram dois dias em sua companhia, em São José dos Campos, puderam constatar como o filho era querido em toda a cidade. Com ele, visitaram sanatórios, colégios, fábricas etc. Tinha muitas famílias amigas. Entre elas a do seu dedicado médico e médico dos salesianos doentes, o Dr. Nelson Silveira D´Avila.
Homem de Deus
Viveu o Pe. Álvaro mergulhado no mondo sobrenatural da fé e da graça: um homem de Deus. Sua vida interior, cultivada com perseverança, desabrochou em apostolado incansável e fecundo, ao mesmo tempo que lhe acresceu a riqueza humana. Sua maturidade espiritual era evidente: tudo revelava nele o religioso e o sacerdote. Jamais menosprezou as pequenas estruturas de =a piedade filial, constantes das Constituições e Regulamentos da sua Congregação Salesiana: rezou seu Breviário até o último dia de vida, fazia regularmente a confissão semanal e, mensalmente, o colóquio com os superiores, foi sempre fiel ás práticas de piedade individuais e comunitárias.
Atesta Mons. Oswaldo Bindão: "Tinha o aspecto exterior dum homem de Deus, totalmente devotado ao ministério, sem ostentação nem vaidades. Eu tinha a impressão de que, apesar de doente, ele sabia exercer a penitência e a mortificação. Que resignação na enfermidade! Nunca ouvi queixar·se dessa cruz pesada. Nunca. Que lições de piedade, paciência e dedicação no ministério sacerdotal!".
Inculcava a devoção â Eucaristia, que ele próprio possuía em grau elevado: "Procure na Eucaristia a força para as lutas · aconselhava a uma dirigida ·. Peça sobretudo a confiança. Não quero que duvide um instante sequer da misericórdia divina". Propagava também a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Em 1944, já bem experiente no ministério, escrevia: "Nesses contatos com tantas almas diferentes, tenho sempre constatado a força da devoção ao Coração de Jesus. Quando comecei meu apostolado aqui em São José, entreguei·o a Jesus e me propus valer·me de sua devoção para santificar as almas; agora, depois de vários anos de experiência, vejo que tomei o caminho acertado... Já tenho recebido de muitas almas a afirmação de que a devoção ao Coração Divino produziu =a verdadeira transformação, não só pessoal, mas até nas famílias".
Tinha para com Nossa Senhora uma devoção filial, presente sempre na correspondência, pregações e aconselhamento. Como filho de Dom Bosco, honrava·a principalmente sob o título de Nossa Senhora Auxiliadora.
"Nessa amizade foi uma verdadeira graça de Deus · acrescenta Mons. Bindão ·, pois sentia o seu fervor contagiante, o seu exemplo de sacerdote santo e ouvia suas palavras sábias e prudentes. Ganhei muito com a sua convivência:'
Visitou·o, quando doente, um antigo colega de noviciado: "Voltando de Porto Velho, soube que Biolchini estava doente em São José dos Campos. Fui visitá·lo: a minha impressão foi que, na sua humildade, estava fazendo concorrência ao Pe. Rodolfo rui santidade". 0 Pe. Rodolfo Komórek, hoje Servo de Deus, fazia parte da comunidade salesiana de São José.
Um co·irmão resume: "0 Biolchini é um santo". Não é uma descoberta. É o juízo dos contemporâneos.
Diretor espiritual
Seu zelo sacerdotal fê·lo diretor espiritual prudente e firme · lembram·no ainda hoje, com gratidão, suas dirigidas (num ponto crítico de minha vida, ele me ajudou demais!") ·. Tinha a palavra convincente, que o testemunho pessoal tomava ainda mais autorizada. Não admitia concessões imprudentes, caminho certo de perigosas acomodações ou quedas. A vida cristã, bem vivida, exige renúncias: a cruz deve ser carregada todos os dias.
Voltamos ao testemunho de Mons. Bindão, datado de 1964: "Um aspecto mais brilhante e característico do Pe. Álvaro era sem dúvida a arte de dirigir as almas. Confessava muita gente, dirigia muitas consciências com muito acerto e sabedoria. Há em São José dos Campos algumas pessoas que ficaram marcadas indelevelmente pela sua orientação; e é interessante verificar que o progresso espiritual continua e avança sempre. Conheço pessoas que ele conseguiu mudar completamente. Parece que o Espírito Santo lhe deu um dom especial para devassar as consciências, descobrir o ponto fraco e aplicar o remédio salutar".
Todos os sábados, ele e o Pe. Rodolfo Komórek, iam atender confissões na igreja matriz. Confessavam das 15 a 17 horas e das 19 ás 21 horas. Entre 17 e 19 horas voltavam â Residência para o jantar. Embora o pároco lhes oferecesse condução, as idas e vindas entre a matriz e a residência eram feitas a pá, o que devia cansar a ambos, doentes. 0 Pé. Álvaro cedia a opção do colega, que sempre demonstrou "alergia" por meios de transporte...
Ouvia cada penitente com a máxima atenção e calma, mesmo que muitos estivessem a aguardar, em longa fila, a própria vez. Dizia que "cada confissão podia ser a última", por isso devia ser feita da melhor maneira possível. Procuravam o prudente diretor de almas quantos levavam a sério a própria vida espiritual.
A morte do pai
Em janeiro de 1943, Dr. Alberto quis passar alguns dias de férias em Águas de São Pedro, em companhia da esposa e dois filhos. 0 esforço da viagem foi·lhe muito prejudicial e, a conselho médico, precisou ficar em completo repouso em São Paulo, até o fim de janeiro. 0 Pe. Álvaro foi visitá·lo para, durante alguns dias, confortá-lo. De volta ao Rio, depois de alternativas de melhoras e pioras, Dr. Alberto veio a falecer no dia 16 de fevereiro. 0 filho sacerdote celebrou missa de corpo presente na capela mortuária da igreja de N. S. da Glória.
Publicou no Boletim Salesiano um pequeno necrológio sobre o falecimento do pai, ótimo cristão, bem preparado intelectualmente, professor, escritor. Dr. AIberto demonstrou sempre, sobretudo nos últimos anos de vida, grande carinho pela Obra Salesiana, auxiliando·a na Obra das Vocações, como fazia, aliás, com varias outras Congregações religiosas. Lembra, o Pe. Álvaro, que o pai teve a honra de ser o primeiro a traduzir para o português o Jovem Instruído de Dom Bosco. Podemos acrescentar que o avô Achille, pai do Dr. Alberto foi, de sua vez, o primeiro tradutor de uma vida de Dom Bosco, escrita pelo Dr. Carlos D'Espiney, ainda em vida do Fundador.
Em São José, o Pe. Álvaro recebeu inúmeras manifestações de pesar, a ponto de sentir·se confundido, missas, comunhões e orações. Demonstração do grande prestígio que desfrutava na cidade, onde dava o máximo de si para fazer o bem.
Uma Irmã, Irmã beneditina
Foi uma alegria para o Pe. Álvaro a entrada de sua irmã mais moça, em fevereiro de 1944, na Abadia de Santa Maria, das monjas beneditinas, em São Paulo.
Até então, acompanhara de longe a vocação religiosa da irmã, rezando muito por ela, mas conservando sempre respeitosa discrição, ditada pela prudência. Escreveu-lhe, nesse tempo uma preciosa carta, da qual respigamos alguns trechos.
"Recebi sua carta da Sexta·feira Santa. Li·a ponderadamente; meditei na importância do assunto. Não quis responder logo: primeiro fui bater à porta do Mestre, pedi luzes ao Coração de Jesus ( ... ).
( ... ) os motivos alegados ( ... ) não são suficientes para recusar a Deus esse ato de submissão e vassalagem. Deus se dignou chamá·la para seu serviço: que honra para o pai que lhe deu a vida, para a mãe que a educou com tanto carinho.
( ... ) Penso que manifestei com precisão o meu pensamento, haurido aos pés do Tabernáculo; falei como irmão e como sacerdote."
Tomada a decisão, o Pe. Álvaro procurou por todos os meios ajudar a ímã. Suas cartas tornaram·se mais expansivas:
"Você pode calcular como tenho rezado. Talvez durante os anos de espera, você tenha pensado que eu não me interessava por sua vocação, por não ter tomado uma atitude mais decidida. Procedi assim de plano pensado ( ... ), queria que a voz do sangue se fizesse sentir o menos possível ( ... ). Você pode imaginar como eu também desejo encontrar·me com você antes de ingressar no Mosteiro. Mas, eu penso que valerá mais o sacrifício recíproco; a imolação será mais perfeita".
Seu desejo pôde realizar·se nesse mesmo ano. Depois de pregar um retiro em Santa Isabel (SP), viajou para São Paulo, celebrando dum missas na Abadia. A tarde do dia 18, após as Vésperas, deu·se a vestidura da irmã e mais dum companheiras. 0 Pe. Álvaro fez de presbítero assistente, ao lado do celebrante, o abade Dom Domingos Schelhorn. Foram dias de grande alegria e emoção, tonto mais que foi ele o único representante da família.
Durante os dois anos que ainda restavam de vida ao Pe. Álvaro, Lia, agora Irmã Francisca, manteve com ele freqüente correspondência. As respostas cuidadosamente coligidas, ao lado das endereçadas a diversos destinatários, constituíram, com outros apontamentos, fonte preciosa para a compilação desta pequena biografia.
Pregador incansável
Durante algum tempo, o Pe. Álvaro julgava·se curado. A alegria sempre estampada em seu semblante fazia com que os outros também se iludissem a respeito de sua saúde. Ele próprio, mais de =a vez, disse à irmã que não sabia por que o médico não lhe permitia deixar definitivamente São José dos Campos. Queria voltar aos meninos.
Outros eram os planos de Deus. Havia de fazer muito bem, mas sobretudo na pregação e no confessionário, onde, como vimos, tantas pessoas, sobretudo as religiosas, encontravam um experimentado guia na vida espiritual.
Pregador incansável (doente, note·se), em novembro de 1943 já havia pregado dez retiros espirituais, e prepara-se para outro no Instituto Teológico Pio XI. Ainda no início de 1944 pregou um retiro ás Irmãs Salesianas recolhidas na Casa Maria Auxiliadora, em Lorena. E já se preparava para, ainda em Lorena, pregar às Filhas de Maria, durante o carnaval.
O sofrimento tornava-lhe fecundo o apostolado. 0 retiro às Filhas de Maria "foi para mim a fonte tão grande de consolação ( ... ) para temperar um pouco os dissabores de que Deus tem semeado tão prodigamente minha vida nestes úItimos tempos".
Apóstolo infatigável, Pregou às senhoras, moças e estudantes, em Píndamonhangaba, em preparação â Páscoa. Foi em seguida a Lorena, onde, durante dez dias, pregou um retiro para as senhoras e para as crianças da Primeira Comunhão. De volta a São José, mais um retiro para as senhoras, para logo depois retomar a Pindamonhangaba para pregar uma semana aos homens e, logo erra seguida, um retiro para as senhoras, em Queluz (SP). Sentia·se bem disposto e amparado pelas orações de "urna irmãzinha escondida que reza e se santifica na Abadia de Santa Maria".
Foi·lhe, por esse tempo, confiada nova missão. 0 Vigário Capitular de Taubaté (Mona. João José de Azevedo) incumbiu·o de instituir nos sanatórios de Campos do Jordão a Legião do Sofrimento, em favor da Ação Católica.
No fim do ano, pregou outro retiro, as meninas do orfanato Puríssimo Coração de Maria, de Guaratinguetá, dirigido pelas Filhas de Maria Auxiliadora.
Em dezembro de 1944, pôde rever a irmã, beneditina. Seria a última vez. Só Deus o sabia. Após celebrar a missa na Abadia, foi retemperar as forças espirituais no retiro para os salesianos, em Campinas. "Fiz um ótimo retiro", escreveu a irmã. ótimo e último...
Abraçando a Cruz
A partir do início de 1945, suas forças físicas entraram em franco declínio. Pôde, entretanto, substituir o capelão do Sanatório durante a Semana Santa. "Aproveitei para acompanhar a Paixão de Cristo naqueles seus membros enfermos." Encontrou ainda energias para ir a Salesópolis; (SP), a fim de preparar as moças para a fundação da Pia União das Filhas de Maria e , aproveitando a oportunidade, fundar na cidade a Pia União dos Cooperadores Salesianos.
Em julho, a doença prostrou·o. Na primeira sexta·feira, celebrou sua última missa na Santa Casa de São José. Cansado, sem voz, viajou nesse mesmo dia para Guaratinguetá, onde devia presidir a reunião dos Cooperadores Salesianos. Foi o seu canto de cisne! "A Providência Divina permitiu que eu chegasse assim, quase ao extremo. Eu sentia dentro de mim o germe da morte, e muitas vezes sofria verdadeiras agonias, mas sempre ocultamente."
Ante nova crise, uma forte cólica de fígado, já não pôde calar. Estava em Guaratinguetá, no Colégio do Carmo, e o mal o atingira logo após a missa. 0 médico, chamado pela Irmã Diretora, diagnosticou derrame pulmonar. Convocado, o Dr. Nélson D'Ávila foi buscá·lo de carro e fê·lo internar no Vicentina Aranha, em São José, para rigoroso tratamento.
Como fizera seis anos antes, ao manifestar·se a doença, renovou sua adesão total a vontade divina. "Se Ele quiser o meu sacrifício total, aceitarei prontamente, porquanto Ele já me mandou dizer que 'tem mais necessidade de sacerdotes·hóstias, que de hóstias para sacerdotes'."
No Vicentina Aranha
Já no Sanatório, o Pe. Álvaro sentiu·se, como sempre, envolvido pela simpatia e solidariedade das muitas pessoas as quais dedicara seu zelo incontido. Rezavam por sua cura. Numerosas missas foram encomendadas diariamente em sua intenção. Comovia·se a enfermeira ao notar nele alguma "novidade". Traziam·lhe remédios para teclas as dores. Frutas, doces e gulodices acumulavam-se em seu quarto. As Irmãs de São José, que tão generosamente trabalhavam no Vicentina Aranha, porfiavam em tratá·lo bem. "São poucos os que compreendera que eu sou feliz no sofrimento e no isolamento. Pensam assim (com mimos espirituais e presentes) em me aliviar, e involuntariamente, me privam do merecimento de sofrer sem consolação humana, somente amparado pelo amor de Deus."
Sofria a "saudade do apostolado". "Mas também este foi afastado, porque o bom Deus me concedeu a graça de não pensar no passado, e de não me preocupar com o futuro." Entretanto, o bem que não podia fazer com o agir. continuou a fazê·lo com o seu ser. "Quantas lagrimas que só podem ser consoladas com um olhar de encorajamento, porque minha situação não permite que eu entre em coisas do espírito; felizmente suo almas que eu conheço bem, e uma palavra, uma expressão do olhar já bastam para que elas compreendam o que quero dizer."
As melhoras eram poucas. A possibilidade de cura, cada vez mais remota, para não dizer nula. A tosse, provocada por um espasmo bronquial, esgotava·lhe as forças e impedia lhe os movimentos. Os remédios traziam apenas algum alívio, Ficou preso ao quarto, em virtude da grande fraqueza. Entretanto, como sua aparência era boa, muitos o julgavam quase são. 0 repouso absoluto engordou·o dois quilos e abriu·lhe o apetite. Permitiram·lhe, então, fazer o repouso no bosque acolhedor do Sanatório, todas as manhãs.
Dia 8 de dezembro, assistiu â santa missa, como fazia aos domingos. Lembrou, nesse último aniversário de sua ordenação, que nos seus sete anos de sacerdócio havia ficado um total de quinze meses sem celebrar, mais de dois anos fechado num quarto, preso a cama e cadeira. Mas aceitava o que Deus dele quisesse. Não podendo celebrar, celebrava outro sacrifício, "o da renúncia da (sua) vontade na vontade de Deus". "Procuro renovar sempre essa renúncia, pois cada dia compreendo mais que para mim e o único meio de 'fazer alguma coisa'. Vivia, desta maneira, o que pregava, como ás postulantes salesianas, em março de 1943: "Ser santa fazer unicamente e em tudo a vontade de Deus'.
Podia também escrever, coerentemente, a uma alma aflita: Conforte·se pensando: enquanto Jesus quer que 'eu leve uma vida inútil', vou procurar torna Ia mil amando·o sem medida. Que melhor ocupação? Portanto, procure reprimir a ansiedade de querer 'o que Deus não quer'. Na submissão amorável, você ouvira muitas vezes as manifestações de agrado do Divino Esposo".
Aberto ao sobrenatural
À proporção que o mal progredia, seu espírito tornava·se cada vez mais aberto ao sobrenatural. Desfazia·se o homem exterior, agigantava·se o homem interior. agigantava-se a obra divina em sua alma.
Não podendo assistir â profissão de sua irmã na Ordem Beneditina, como tanto sonhara, acompanhou·lhe a preparação com conselhos oportunos e sobretudo com * coerência com que vivia sua oferta pessoal.
"Agora sua preocupação é a profissão religiosa. E * preciso que seja assim mesmo. Tão importante é esse passo na vida, que merece uma longa preparação: a compreensão exata da imolação que se faz a Deus; como é triste ver·se almas que vegetam, sem terem noção de que são pertences de Deus, que se fizeram religiosas quase que por casualidade. Não quero que isso aconteça com minha irmã."
"Como eu seria feliz se pudesse estar a seu lado nesse dia! Eu quisera acompanhá·la pessoalmente em todas as ascensões de sua vida religiosa, para que os nossos corações se unissem ainda mais no amor de Deus e da S.S. Virgem! Deus determinou de outro modo; quer dizer que eu a acompanharei em espirito."
A amizade fraterna, tão sobrenatural, que unia n sacerdote à irmã religiosa, estendia·se a toda a Abadia de Santa Maria. Rezava pelas intenções da Abadia, pelas "almas que louvara ao Senhor em Santa Maria", família abençoada da Virgem Maria". Evocava a satisfação que lhe proporcionavam as visitas ao mosteiro "comunidade (onde) se ama verdadeiramente a Cristo"
Suas últimas cartas transpiram grande carinho para com seus familiares. Tinha·os presentes a todos, vivos e mortos, em suas intenções diante de Deus. Tais cartas, como as que escreveu nos dois meses que lhe precederam a morte, evidenciam impressionante crescimento sobrenatural.
Já não havia ilusão
... quanto a recuperação de sua saúde.
Em 21 de janeiro de 1946, exatamente um mês antes de sua morte, escrevia â irmã:
".. não se preocupe demasiado com minha saúde. Vou lhe dizer com sinceridade o que penso a meu respeito, para que você compreenda melhor a minha disposição de espírito. Naturalmente e para seu uso particular ( ... ). Faz dois anos que tenho sentido em mim a decadência física, com diminuição de forças, e uma espécie de sensação de que o fim se aproxima. Agora, depois de seis meses no sanatório, sinto·me mais forte, mas sucedem·se momentos de abatimento, que me demonstram que é uma utopia esperar uma cura por meios meramente humanos. ( ... ) Minha oferta já está feita há muito tempo. Pus nas mãos de Deus tudo, principalmente minha vontade: procurei esquecer o passado com as consolações do ministério, procuro não pensar no futuro; não me lastimo da minha inação presente; Deus riso precisa de mim, para que, pois, pretender voltar ao trabalho contra sua vontade? Aproveito, apenas, as ocasiões que Ele me proporciona para fazer um pouco de bem aqui mesmo (no sanatório), ou por correspondência ( ... ). Não desprezo nenhum dos meios que estão ao meu alcance para readquirir a saúde, mas rejeito sempre que posso os extraordinários. Sou pobre por profissão ( ... ). Uma coisa me preocupa, mas tenho procurado, à imitação de Santa Teresinha, aceitá·la como um mimo de Jesus: é a falta de sofrimentos. Tenho visto tantas almas, sem as responsabilidades sacerdotais, inocentes, torturadas atrozmente ( ... ). A mim Deus tem poupado ( ... ). Ele conhece minha fraqueza: eu não saberia sofrer dignamente."
Sua última carta foi escrita em 18 de fevereiro. Nela bruxuleia uma esperança: " ( ... ) tenho melhorado. ( ... ) Ate estou com vontade de arriscar o pedido de celebrar: mas duvido que me permitam". "Quando a irmã a recebeu, o Pe. Álvaro já havia dois dias que celebrava no céu...
Ite, missa est!
Dia 21 de fevereiro de 1946. Ao abrir pela manhã a janela de seu quarto à Rua Guilhermino, 11, um colega doente estranhou um carro fúnebre postado à frente do Portão da Residência. Soube, pouco depois, que o Pe. Álvaro falecera à uma da madrugada.
Na véspera, horas antes de seu improviso desaparecimento, recebeu a visita (talvez a última) de três dirigidas, que ainda hoje lembram saudosas a alegria do encontro. 0 Pe. Álvaro, sentado em sua cadeira de a, de batina branca, riu a bom rir com os "casos" contados por uma delas, mais extrovertida. A morte, porém, estava a espreita...
Por volta das 20 horas, ao passar como de costume pela sala de estar, o padre capelão viu·o a conversar com os moços que se divertiam com jogos de mesa. Bom salesiano, costumava viver no meio dos rapazes, confortando·os com sua presença amiga, tão espontaneamente alegre. Os jovens queriam4he muito.
Deitara·se bem disposto. Por volta da meia·noite, porém, chamou o enfermeiro: debatia·se em violenta hemoptise. Foi chamado o padre capelão para dar·lhe os últimos sacramentos, entre uma e duas horas da madrugada. Já não falava, mas recebeu com serem e confiança o chamado de Deus. A Irmã Superiora apressou·se em socorrê·lo, assim como o médico interno. Não obstante os esforços de todos, o enfermo sucumbiu a fadiga e ao sofrimento.
Nos momentos extremos, só falou de Nossa Senhora: "Maria Santíssima, ajudai·me". "Minha Mãe, dai·me o Céu" juntando outras invocações do mesmo teor. Quando mais intensa se fez a hemoptise, quis a Irmã enfermeira auxiliá·lo com fricções na garganta. 0 doente afastou·lhe a mão, mas deixou sem dificuldade que o fizesse o padre capelão.
Foram rezadas várias missas de corpo presente, na pequena capela da Residência. 0 falecido tinha nas mãos o precioso crucifixo que Dom Bosco oferecera a uma família amiga. 0 semblante exprimia paz espiritual, acentuada por ligeiro sorriso, o sorriso que sempre lhe sorrira nos lábios de jovem entusiasta, religioso fiel, sacerdote zeloso.
Durante o dia inteiro sucederam·se ininterruptamente as visitas. Eram pessoas que o veneravam e agora depositavam flores em seu caixão. Ao lado, ajoelhado, rezava o Pe. Rodolfo Komórek. Um santo velava outro santo.
As exéquias foram oficiadas pelo padre inspetor salesiano, Pe. Orlando Chaves. Estavam presentes "mãezinha" e três irmãos, sacerdotes seculares e religiosos, numerosas associações religiosas e amigos dos salesianos. 0 enterro foi, a bem dizer, um procissão triunfal.
os restos mortais do Pe. Álvaro descansam, até hoje, entre os irmãos salesianos falecidos em São José dos Campos, no cemitério local.
"Ainda hoje, escrevia, em 1964, Mons. Oswaldo Bindão é viva a lembrança de seu grande amor de Deus e das almas, e são muitas as pessoas que sentem a proteção do Pe. Álvaro, e têm obtido favores especiais, principalmente em se tratando de conversão de membros da própria família."
0 religioso fiel, o sacerdote exemplar continua a fazer, do céu, o grande bem que fez na terra em seus breves mas fecundos anos de vida.
Dele se pode dizer que viveu de fato o que se Propôs como lema de seu sacerdócio: "In sanctitate et justitia coram ipso, omnibus diebus nostris" (Lc 1,75). Caminhou na presença de seu Deus, sem jamais fazer concessões à inconstância e a mediocridade. Agora a visão de Deus, que lobrigou na fé e na esperança, rasgase·lhe à mente num perene face a face e se doa por inteiro a um amor que nada nem ninguém poderá conter, muito menos arrebatar.
Deveras, vocação realizada, a do Pe. Álvaro Biolchini!
