Biografia - Padre Paolo Biolchini



Padre Paolo Biolchini

Padre Paulo Biolchini, natural de Roma, nascido em 25 de Setembro de 1837, filho do romano Vincenzo Biolchini, procurador canônico do tribunal da S. Rota Romana, e Adelaide Villetti. Em 7 de Julho de 1853, em Roma, é admitido na Ordem Companhia de Jesus como noviço. De 1853 até 1866 frequentou seminários, e de 1867 à 1877, já como Missionário Apostólico, esteve em missão no Brasil. Em 1877, regressa para a Itália, passando por seminários em Roma, Bolonha e Florença. Na função de educador, ensinou gramática nas cidades italianas Ferrara, Forli e Ascoli. Em Toscanella, foi professor de humanidades. Em 1894, após publicar uma carta de seu autoria criticando o poder exagerado de seus superiores, é forçado a deixar a ordem. Em 1895, retorna ao Brasil para exercer o sacerdócio.


A Missão no Brasil (1867-1877)


Chegou no Brasil em 1867, no Porto de Recife, Pernambuco, onde iniciou sua missão como professor no Colégio São Francisco Xavier. Seguiu para o Rio de Janeiro em 28 de janeiro de 1868, embarcado no vapor inglês Tasmanian, na rota Southampton (Inglaterra) com escalas em Recife e Salvador. Desembarcou no porto do Rio de Janeiro no dia 02 de fevereiro de 1968. Quatro dias depois de seu desembarque, no dia 06 de fevereiro, Padre Paolo embarca no vapor Guaporé, com destino aos portos do sul do país. A missão durou até 1877, quando retornou à Itália para exercer a função de educador. 

Paolo foi o primeiro membro da família Biolchini a se estabelecer no Brasil. Registros na Ordem Companhia de Jesus, em Roma, estabelecem que sua missão começou em Pernambuco.  Segundo ainda estes registros, permaneceu ali por um ano. Serviu também como missionário apostólico nas seguintes cidades:


Província de Santa Catarina 

Como missionário, permaneceu 4 anos:
  • Florianópolis (Desterro)
  • Camboriú 
  • Porto Bello (1868)
  • Foz do Tijucas
  • São João do Alto
Rio Grande do Sul
  • Porto Alegre (1872)
  • Piratini (Vigário encomendado - Abril à Dezembro de 1872)
São Paulo
  • Atibaia (1874)
Minas Gerais
Missionário:
  • Dores de Guaxupé (1876)
  • Monte Santo
  • São Pedro da União
  • Jacuí
  • Santa Rita (Velha)
Rio de Janeiro
  • Mendes (Vigario) 1901
  • Barra Mansa (Vigário da Matriz) 1902-1903
  • Cajú (Capelão do Asilo São Luiz) 1904

Mapa da Missão Apostólica 



Pelo Sul do Brasil

Em Desterro, no dia 27 de agosto de 1869, Padre Paolo Biolchini recebeu uma manifestação formal de agradecimento do governo da Província de Santa Catarina por sua significativa colaboração no esforço de guerra contra o Paraguai. Este reconhecimento sublinha a influência e o impacto de seu trabalho missionário em uma época turbulenta da história do Brasil.

Padre Paolo, de temperamento forte e com uma convicção inabalável sobre sua missão no Brasil, enfrentou inúmeros desafios, tanto da imprensa conservadora quanto de alguns setores da própria Igreja Católica. A sua determinação em cumprir sua missão frequentemente o colocava em confronto com as convenções sociais e eclesiásticas da época. Mesmo sem dominar completamente a língua portuguesa e suas nuances, os relatos indicam que seus discursos eram marcados por uma paixão fervorosa e por palavras contundentes que frequentemente chocavam os fiéis das diversas paróquias onde serviu.

Conhecido por sua rigidez, Padre Paolo também demonstrava uma profunda humanidade. Em um período em que os escravos eram tratados como mercadorias, com anúncios de venda publicados nos jornais, ele desafiou as normas sociais ao permitir que negros assistissem às missas, uma ação que gerou descontentamento entre muitos membros da sociedade da época.

A hostilidade que Paolo enfrentava é ilustrada em um artigo publicado em 15 de maio de 1869 pelo jornal A Regeneração, de Santa Catarina. O jornal relatava com um tom crítico os métodos e a postura de Paolo, refletindo o clima de resistência que ele encontrava em sua missão de promover a inclusão e a igualdade dentro da igreja.

Apesar das adversidades, Padre Paolo Biolchini permaneceu firme em seu propósito, continuando a servir com devoção e a desafiar as injustiças sociais e religiosas de seu tempo. Sua trajetória no Brasil é um testemunho de coragem e compromisso com os valores cristãos de justiça e fraternidade, deixando um legado de resistência e transformação na história das missões religiosas no país.

Para ilustrar um pouco a hostilidade que Paolo era vítima, em 15 de Maio de 1869, o Jornal A Regeneração, de Santa Catarina, trazia a seguinte matéria:

Ante-hontem à noite na Igreja Matriz por ocasião da celebração do Mez de Maria, o Rvm, Padre Paulo Biolchini foi encarregado da pratica do estylo.
Este sacerdote animado de zelo pelas cousas do culto religioso, espraiou-se na apreciação dos deveres moraes do homem, e talvez levado pelo entusiasmo da catequese esqueceu-se da gente, do lugar, e do assumpto de que falava e deslisou-se em descrever chã e desembuçadamente scenas menos dignas em ideias de lubricidade e asquerosos objectos.

O desmando de sua exaltação foi tal que chegou este padre a proferir palavras.... que nem podemos indicar sem córar !

Os chefes das famílias que muito louvavelmente concorriam a esses actos de religião, estão revoltados contra semelhantes desmandos, e se achão resolvidos a não conduzir sua família no templo, em quanto souberem que se arriscam a ouvir palavras que a decencia prohibe.

Chamamos a atenção de quem de direito para esses abusos em que portal forma se desrespeita a tribuna sagrada evitando-se que a ella subam homens que se prevalecem do lugar e da sua ignorância da língua nacional para descer com o estylo ao rasteiro, e chegar até o escandaloso e incidente.
Por outro lado, em Dores de Guaxupé, Minas Gerais, moradores fizeram um abaixo-assinado em gratidão ao Padre Paolo, como noticiou em 06 de Fevereiro de 1876, o jornal Apóstolo:
"Nós abaixo-assinados, habitantes de freguesia das Dôres do Guaxupé, província de Minas e bispado de de S. Paulo, não podemos deixar de vir à imprensa testemunhar perante o povo catholico desta diocese nossa gratidão para com os Revdos, padres missionários Paulo Biolchini e Wandelino Bock: nós agradecemos e bendizemos a estes ministros do Senhor que, deixando os seus próprios commodos e com sacrifícios indizíveis, vieram dm Guaxupé pregar-nos a palavra divina, da qual ha tanto tempo eramos privados e della sequiosos.
Nossos corações sentem-se ainda comovidos, e as lágrimas querem deslizar-se de nossas faces ao lembrarmos dos bellos dias que juntos a nós demoram-se estes ministros e apóstolos do Senhor !"
Veja original aqui:


Pelas pequenas cidades e vilas de Santa Catarina, seguiu Paolo por quatro anos em sua missão apostólica. No mapa abaixo, destacado em amarelo,  está a região do Vale do Itajaí onde ele esteve.













Padre Paolo ( Em pé, à direita) com velhinhos do Asilo S. Luiz - 1904


 No dia 6 de janeiro de 1902, aos 65 anos de idade, Padre Paolo Biolchini assumiu a posição de vigário na Igreja Matriz de São Sebastião, localizada em Barra Mansa, no Estado do Rio de Janeiro. Este novo capítulo em sua vida ministerial foi recebido com expectativas pela comunidade local, apesar de sua passagem pela cidade ter sido relativamente breve.

De acordo com os registros do livro tombo da paróquia, Padre Paolo permaneceu oficialmente como vigário até o dia 30 de agosto de 1903. No entanto, eventos subsequentes indicam que sua presença física na matriz se encerrou no domingo, dia 1º de fevereiro de 1903. A sua saída antecipada teve uma causa significativa, como detalhado em uma matéria do jornal barramansense "A Semana", de 8 de fevereiro de 1903, que expõe os motivos por trás do afastamento de Padre Paolo da Paróquia de Barra Mansa.

Conforme relatado pelo jornal, cujo editor era o senhor Ari Fontenelle, Padre Paolo foi compelido a deixar a cidade devido a problemas com suas faculdades mentais, atribuídos à sua idade avançada. No entanto, há indícios de que uma poderosa família local estava interessada em tomar posse de alguns bens da igreja, e Padre Paolo opôs-se firmemente a essa tentativa. Esse confronto culminou em um motim, que ocorreu após a missa dominical, quando Padre Paolo denunciou energicamente a situação em curso.

Naquele mesmo dia, por volta das 11 horas da noite, um grupo de homens cercou a igreja. Ao ouvir a algazarra do lado de fora, Padre Paolo, buscando ajuda, tocou os sinos da igreja. O grupo, em seguida, arrombou uma das portas laterais e entrou. Encontraram Padre Paolo no coro, visivelmente assustado, segurando um lampião, acompanhado de sua cozinheira, uma senhora idosa que residia em um cômodo anexo à igreja.

Com um tom agressivo e intimidador, os homens ordenaram que Padre Paolo fizesse suas malas e deixasse Barra Mansa, indicando que ele deveria partir naquela mesma noite no trem noturno, programado para passar pela estação às 3h20 da madrugada, com destino à capital federal. Sem oferecer resistência, Padre Paolo cumpriu as ordens. Expulso sob coação, ele deixou Barra Mansa naquela madrugada, marcando o fim abrupto e dramático de sua breve estadia na cidade.


Sobre estes acontecimentos, o historiador e genealogista J. B. de Athayde, em seu livro "IGREJA MATRIZ DE SÃO SEBASTIÃO DA BARRA MANSA", HISTÓRIA ECLESIÁSTICA DA PARÓQUIA, (1859-1959)", descreve:
... O Cônego Cândido Marinho da Oliveira foi substituído pelo Padre Paulo Biolchini, intrépido missionário apostólico, natural de Roma, que tomou posse na paróquia em 06 de Janeiro de 1902, como seu vigário encomendado e encarregado das paróquias do Espirito Santo e Quatis. Exerceu, ainda, as funções de fabriqueiro da matriz, por nomeação do Governador do Bispado de Petrópolis.A posição corajosa que assumiu em defesa de uma parte do patrimônio da paróquia quando esteve na iminência de ser esbulhada pelos herdeiros de Monsenhor Lustosa , fá-lo credor da gratidão da igreja e motivo da nossa mais exaltada admiração. Tendo contra si apenas a condição de estrangeiro, que seus inimigos gratuitos procuraram explorar, a todos arrostou, destemerosamente, sem poder, contudo, impedir que no desuario da cupidez, chegassem ao extremo de provocar um motim, visando, assim, incompatibilizá-lo com o povo e as autoridades civis e eclesiásticas. Depois desses graves e vergonhosos acontecimentos, não lhe restava outro recurso senão deixar a paróquia, onde seu nome continua entretanto fulgindo esmo símbolo vivo de um daqueles 10 mandamentos que Deus, no alto do Sinai, transmitiu a Moisés, e foram escritos nas tábuas da Lei. O padre Paulo Biolchini, depois de 01 ano, 11 meses e 13 dias à frente da paróquia, foi substituído em 19 de dezembro de 1903, por Monsenhor Inácio Cândido da Costa.
Matriz de Barra Mansa

Após sua saída de Barra Mansa, Padre Paolo Biolchini se estabeleceu no Rio de Janeiro, onde enfrentou mais uma vez situações de injustiça. Em uma dessas ocasiões, um inquilino de uma casa de sua propriedade, localizada no Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, recusou-se a devolver a posse do imóvel, mesmo após o término do contrato de locação. Padre Paolo pretendia utilizar essa casa como seu refúgio final, onde esperava passar os últimos anos de sua vida em tranquilidade.

A disputa pela posse do imóvel se prolongou por três anos nas cortes de justiça. Durante este período, Padre Paolo enfrentou uma batalha judicial exaustiva e dispendiosa, que consumiu não apenas suas energias, mas também seus recursos financeiros. Finalmente, após essa prolongada luta, a justiça concedeu-lhe o direito à posse da casa, restaurando um pouco de sua paz de espírito.

Apesar de sua idade avançada, as adversidades não cessaram. Cansado e financeiramente debilitado devido às elevadas despesas com o processo judicial, Padre Paolo decidiu vender a casa e retornar à Itália, sua terra natal. Em 20 de janeiro de 1906, ele embarcou no vapor Rio Amazonas, com destino final à cidade de Gênova. Antes de partir, confiou a um advogado, Carlos de Albuquerque Hollanda Cavalcante, a tarefa de vender o imóvel e remeter o saldo da venda para a Itália. Infelizmente, aproveitando-se da ausência de Padre Paolo no Brasil, Dr. Hollanda vendeu a propriedade e desonestamente apropriou-se do valor da venda, uma quantia significativa de 3 contos de réis.

Vapor Rio Amazonas trazendo imigrantes italianos
Este ato de desonestidade foi denunciado nos jornais pelo sobrinho de Padre Paolo, Alberto Biolchini, que havia acabado de se formar em Direito no Rio de Janeiro. Alberto trouxe à tona a injustiça sofrida por seu tio, expondo a fraude cometida pelo advogado e buscando justiça para reparar os danos causados à sua família.

Infelizmente, Padre Paolo Biolchini, já pobre e debilitado pela idade e pela enfermidade, faleceu em Roma. Sua vida, marcada por uma série de desafios e injustiças, reflete a resistência e a coragem de um homem dedicado à sua missão e à sua fé, mesmo diante das adversidades mais severas. Seu legado, embora envolto em dificuldades, permanece como um testemunho de sua força de caráter e de sua incansável busca por justiça e dignidade até seus últimos dias.