UM ROMANO, PROFESSOR E POLIGLOTA
Achille Biolchini nasceu em 1840, em pleno coração da Cidade Eterna, na Casa Caracci, localizada na Via della Cuccagna nº 3, a poucos passos da célebre Piazza Navona. Esse local, impregnado de história e tradição, situava-se em um dos bairros mais vibrantes de Roma, onde o esplendor barroco das fontes de Gian Lorenzo Bernini dialogava com os vestígios do passado imperial. A Piazza Navona, construída sobre as ruínas do estádio de Domiciano, era, no século XIX, não apenas um centro de sociabilidade e comércio, mas também um ponto de encontro de famílias romanas tradicionais, artistas, clérigos e viajantes vindos de toda a Europa em busca da grandiosidade da capital pontifícia.
Achille era filho de Vincenzo Maria Biolchini, um respeitado procurador canônico no tribunal da Sacra Rota Romana — uma das mais altas instituições jurídicas da Igreja Católica, símbolo da profunda ligação da família Biolchini com a vida religiosa e jurídica do Estado Pontifício. Sua mãe, Adelaide Villetti, era filha de Giuseppe Villetti, pertencente a uma família igualmente enraizada nas tradições romanas. O nascimento de Achille, portanto, unia duas linhagens que partilhavam não apenas a devoção católica, mas também a inserção em um contexto social respeitável e de prestígio dentro da Roma papal.
A Roma de 1840, onde veio ao mundo o pequeno Achille, ainda vivia sob o governo dos Papas, em um período de relativa estabilidade antes das revoluções que, uma década mais tarde, sacudiriam a península italiana. Era uma cidade cercada por muralhas renascentistas e pontilhada por igrejas, conventos e palácios nobres, mas também marcada por ruas estreitas, mercados efervescentes e uma população que mesclava o esplendor clerical com a simplicidade popular. Ao caminhar por suas vias, ouvia-se o badalar incessante dos sinos que marcavam o ritmo da vida cotidiana, enquanto carruagens e vendedores ambulantes davam movimento e cor ao cenário urbano.
O batismo de Achille ocorreu em 1º de fevereiro de 1840, na igreja de Santa Maria in Via, localizada no Rione Colonna, um dos mais antigos e nobres bairros da cidade. O sacramento foi celebrado pelo padre Filipo Morelli, tendo como padrinhos Pietro Caracci e Anna Bovi, personalidades respeitadas na sociedade local, o que reforça os vínculos da família Biolchini com círculos de prestígio. A igreja de Santa Maria in Via, construída entre 1491 e 1513 sob os auspícios do Papa Inocêncio VIII, ostentava uma fachada imponente e um interior ricamente adornado, concebido pelo arquiteto Cosimo Fanzago. Entre seus tesouros espirituais, destacava-se a Capela do Poço, dedicada à memória do milagre da Madonna del Pozzo, ocorrido em 1256, devoção profundamente enraizada entre os romanos.
Tragicamente, Achille perdeu seu pai aos 11 anos, um evento que marcou profundamente sua infância e adolescência. Após essa perda, ele e sua família mudaram-se para a Via Magna Napoli No. 1, perto do Foro Traiano no Rione Trevi, uma área conhecida por sua vibrante atividade cultural e histórica.
Seguindo a tradição das famílias de sólida posição social em Roma, Achille e seu irmão mais velho, Paolo Biolchini, receberam formação no prestigiado Collegio Romano, instituição que marcava a educação das elites da época. O Colégio havia sido fundado em 1551 por Santo Inácio de Loyola, criador da Companhia de Jesus (os jesuítas), inicialmente instalado em um palácio situado na base do Capitólio — edifício esse mais tarde demolido. Era a primeira escola jesuíta, destinada a oferecer uma educação integral, tanto humanista quanto religiosa, e já desde os primórdios possuía uma biblioteca anexa, demonstrando o valor atribuído ao estudo e à erudição.
Posteriormente, em 1584, o Papa Gregório XIII transferiu a instituição para uma nova e monumental sede, o Palácio do Collegio Romano, situado na Piazza del Collegio Romano. Em reconhecimento a este gesto, a escola passou a ser conhecida como Gregoriana. Ao longo dos séculos, o Collegio Romano tornou-se um dos centros de ensino mais respeitados da Europa, formando gerações de juristas, teólogos, cientistas e literatos.
No século XIX, a vida estudantil no Collegio Romano seguia os rígidos princípios pedagógicos da Companhia de Jesus, baseados no Ratio Studiorum, o método de ensino jesuítico que unia disciplina intelectual, formação moral e espiritualidade. Os dias começavam cedo, com momentos de oração comunitária, seguidos das aulas de latim, grego, retórica e filosofia, que constituíam a base da formação humanista. O estudo das ciências naturais e matemáticas também ocupava espaço importante, já que o colégio mantinha laboratórios e gabinetes de física e astronomia reconhecidos em toda a Europa. A disciplina da teologia permeava todo o currículo, moldando o caráter dos jovens segundo os valores católicos.
A rotina era marcada pela disciplina rígida e pela ênfase na oratória e no debate, habilidades fundamentais para a formação de futuros juristas, clérigos e administradores. Os alunos eram incentivados a participar de disputas acadêmicas, apresentações públicas e exercícios de retórica que lhes davam desenvoltura intelectual e prestígio social. Além disso, o Collegio Romano abrigava uma das bibliotecas mais notáveis da época, permitindo aos estudantes o contato com obras clássicas e modernas, o que enriquecia sua formação cultural.
Para Achille e Paolo Biolchini, estudar no Collegio Romano significava ser preparados para integrar-se à elite intelectual e eclesiástica do Estado Pontifício. O convívio com colegas de famílias tradicionais de Roma e de outras regiões da península reforçava laços sociais e perpetuava tradições que atravessavam gerações. Assim, sua formação não se limitava à erudição acadêmica, mas incluía também a inserção em uma rede de relações que consolidava a posição da família Biolchini na sociedade romana do século XIX.
Adicionalmente, Achille era membro ativo da Arcadia Romana, uma renomada academia literária fundada em 1690, que atestava seu envolvimento profundo com as artes e a literatura. Este aspecto de sua vida destaca a combinação de sua formação religiosa com seu interesse pelas humanidades, refletindo a complexidade de seu caráter e o ambiente intelectual em que estava imerso.
Vindo de uma linhagem de servidores públicos influentes, o avô de Achille, Luigi Biolchini, foi nomeado Cancelliere do Tribunal de Roma por decreto imperial em 1808, uma posição de grande prestígio e responsabilidade, reiterando o status de sua família na sociedade romana.
Aos 23 anos, Achille desempenhou o papel de padrinho no casamento de seu irmão Giuseppe, em 1863, com Maria Merli. Maria era irmã de Giulia Merli, com quem Achille viria a casar muitos anos depois, em 1878, consolidando laços familiares e sociais que eram típicos da época.
Esta biografia detalha não apenas os eventos da vida de Achille Biolchini, mas também pinta um retrato vívido de seu contexto familiar, educacional e social, revelando um homem profundamente enraizado nas tradições de sua cidade e de sua época.
DE ROMA PARA DESTERRO
Achille Biolchini não foi o primeiro de sua família a pisar em terras brasileiras. Essa distinção cabe ao seu irmão, Paolo Biolchini, um missionário jesuíta apostólico que iniciou sua missão no Brasil em 1865. Paolo estabeleceu-se em várias cidades em estados como Pernambuco, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e notavelmente em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, contribuindo significativamente para o alcance da missão jesuíta.
Seguindo os passos de seu irmão, Achille chegou ao Brasil em um dia marcante, 26 de março de 1871. Sua jornada começou em Gênova a bordo do vapor italiano "Pampa", que fez paradas em Marselha e Gibraltar, navegando pelo Mediterrâneo até o Atlântico Sul. Esta viagem de 26 dias foi um testemunho dos desafios de navegação da época e do robusto espírito dos aventureiros e migrantes. O "Pampa", com destino final a Buenos Aires, primeiro atracou no porto do Rio de Janeiro. Ao lado de Achille, desembarcaram seis italianos, um francês e um inglês, enquanto outros 274 passageiros continuaram sua jornada para Buenos Aires.
A primeira estadia de Achille no Rio foi breve. Já em 6 de abril, ele estava em movimento novamente, desta vez a bordo do vapor Guaporé, rumo aos portos do sul do Brasil. Foi em Desterro, hoje conhecido como Florianópolis em Santa Catarina, onde ele se reuniu com seu irmão Paolo, que estava ativamente envolvido em seu trabalho missionário. Achille retornou ao Rio de Janeiro em 22 de junho a bordo do vapor Santa Cruz, após passar aproximadamente dois meses absorvendo a vibrante cultura da capital imperial. Em agosto, ele estava viajando de volta para Santa Catarina no Calderon, fixando-se lá até 1873, quando fez um retorno definitivo ao Rio de Janeiro.
Desterro, durante o tempo de Achille, era uma cidade em ascensão que atraía um número considerável de imigrantes e comerciantes, impulsionada por suas promissoras perspectivas econômicas. Aproveitando as oportunidades comerciais, Achille aventurou-se no mundo do varejo, tornando-se sócio de Alexandre Delaili, um comerciante especializado em roupas importadas da França. O empreendimento deles, A Thezoura da Moda, estava situado em uma localização privilegiada na Rua do Senado, No.4, no centro agitado da cidade. No entanto, por razões não documentadas, a sociedade foi amigavelmente dissolvida — um momento crucial que talvez tenha levado Achille a descobrir sua verdadeira vocação como educador.
Esta narrativa não apenas detalha a jornada geográfica e profissional de Achille Biolchini, mas também demonstra inequivocamente sua adaptabilidade e integração na sociedade brasileira. Sua transição de empresário para educador marca uma virada significativa em sua vida, ilustrando sua resposta às mudanças de marés de experiências pessoais e profissionais.
EDUCANDO EM CAMPOS DOS GOYTACAZES
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| Rua Direita, ano 1879. |
De 1874 a 1876, Achille Biolchini dividia seu tempo ensinando nas cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis. Ele lecionava latim, filosofia e matemática no Colégio Kopke, em Petrópolis. A partir de 1876, mudou-se para Campos, no Estado do Rio de Janeiro, onde se tornou diretor do internato Colégio São Salvador, localizado à Rua Direita No. 184, atual Boulevard Francisco de Paula Carneiro. O colégio hospedava cerca de 38 alunos, principalmente filhos de fazendeiros e membros da classe abastada de Campos. O currículo era abrangente, incluindo português, inglês, francês, matemática, latim, história, filosofia, geografia e escrituração mercantil, além de educação física. O objetivo educacional era preparar os alunos para passar nos exames administrados pela Secretaria de Instrução Pública da Corte, no Rio de Janeiro, o que, uma vez aprovados, permitia-lhes ingressar em instituições prestigiosas como o muito concorrido Ginásio Nacional, onde Achille também viria a ensinar.
Para os exames, os alunos viajavam com um dos diretores até a capital através dos serviços de vapores que existiam no porto de Imbetiba, conectando Macaé ao porto do Rio de Janeiro. O percurso de Campos até o porto de Imbetiba cobria 96 quilômetros por via férrea, atendidos pela Companhia Estrada de Ferro Macaé e Campos, que iniciou suas operações em 1875. Combinando a jornada de trem e vapor, consumia-se um dia inteiro de viagem para chegar ao local dos exames. Campos, impulsionada por sua força econômica derivada da pecuária e do cultivo da cana-de-açúcar, desfrutava das modernidades da época. Um evento notável que repercutiu na cidade ocorreu em meados de janeiro de 1879. Em frente ao Colégio São Salvador, uma parada de bondes da Companhia Ferro-Carril foi estabelecida, o que muito agradou a Achille. Para comemorar, em 25 de janeiro de 1879, ele e o corpo docente organizaram uma recepção no saguão do próprio colégio, elegantemente decorado com bandeiras e alcatifado com flores e folhas. O banquete contou com iguarias requintadas, brindes e cantorias dedicadas aos amigos e ilustres da cidade. Um dos alunos, Aurélio Tavares de Oliveira, proferiu um discurso emocionante e pertinente à ocasião. O ponto alto da noite foi o brinde que Antonio de Oliveira e Silva, redator do jornal A Reforma, levantou em homenagem ao educador Achille, seguido de um discurso muito elogioso salientando o notável progresso educacional que o estabelecimento trouxe à cidade. A música continuou até quase onze horas da noite, e o evento, que contou com cerca de 400 pessoas, foi encerrando aos poucos enquanto os convidados retornavam às suas casas.
Apesar de ser um estrangeiro culto, de estatura muito alta para os padrões da época e ser um empreendedor, o que lhe trouxe não só admiração e cortejos, Achille também encontrou invejosos que se tornaram seus inimigos sem motivo. Mesmo em Campos, cidade que o acolheu calorosamente, houve quem dispusesse de tempo e dinheiro para tentar denegrir sua imagem quando ele tinha 36 anos e ainda era solteiro.
Achille permaneceu em Campos até 1880, quando se mudou novamente para Petrópolis. Este período de sua vida não apenas sublinha seu impacto significativo na educação, mas também ilustra as dinâmicas sociais e os desafios que enfrentou em terra estrangeira, aprofundando nossa compreensão de seu caráter e resiliência.
NA CIDADE DO IMPERADOR
| Rua do Imperador, Petrópolis, onde Achille residia em 1880. |
Em janeiro de 1880, Achille Biolchini e sua família realizaram uma importante mudança: deixaram a cidade de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, para estabelecer residência em Petrópolis, então reconhecida como capital de verão do Império do Brasil.
Campos, região em que residira anteriormente, havia se destacado no século XIX como um dos centros econômicos mais prósperos da província do Rio de Janeiro, graças ao cultivo da cana-de-açúcar e à produção de derivados, que abasteciam o mercado interno e contribuíam para a riqueza da região. A cidade atraía comerciantes, intelectuais e profissionais liberais, tornando-se um polo dinâmico no interior fluminense. Foi nesse ambiente de relativa prosperidade que Achille desenvolveu parte de sua trajetória, antes de se transferir para a serra fluminense.
A mudança para Petrópolis marcava não apenas uma transição geográfica, mas também social e profissional. Fundada em 1843 por iniciativa de Dom Pedro II, Petrópolis foi planejada como residência de verão da corte imperial e como cidade-modelo, com traços urbanísticos europeus e forte presença de imigrantes alemães. Durante os meses mais quentes do ano, a cidade transformava-se no centro político-administrativo do Império, atraindo membros da aristocracia, intelectuais e artistas. Nesse contexto, a presença de Achille Biolchini e sua atuação como educador reforçaram seu prestígio em um ambiente que unia cultura, política e religiosidade.
Nasce o primeiro filho, José, em 08 de Fevereiro de 1880.
Ainda em 1880, Achille acumulava também o cargo de professor de latim no Collegio Abílio, na cidade do Rio de Janeiro, instituição de ensino de prestígio. Nesse mesmo ano, nasceu seu filho primogênito, José, marco importante na vida familiar.
Em Petrópolis, Achille tornou-se uma figura amplamente conhecida nos meios educacionais e eclesiásticos, sendo popularmente chamado de Dr. Achilles. Sua reputação era marcada não apenas pelo saber humanístico e pela formação sólida recebida em Roma, mas também pelo empenho em empreender no campo da educação. Dentro desse espírito, associou-se a um educador local para fundar o Collegio Biolchini & Paixão, que logo ganhou destaque entre as instituições de ensino da cidade.
Em 18 de maio de 1886, o jornal português O Economista, publicado em Lisboa, noticiava a visita do Imperador Dom Pedro II ao Colégio São José, em Petrópolis, instituição onde Achille Biolchini exercia a função de professor e diretor. A reportagem, impressa na edição de 1º de julho de 1886, relata que o monarca percorreu diversas dependências do colégio, acompanhado pelo corpo docente, e assistiu a algumas aulas.
No curso de português, dirigido pelo professor Torres Galindo, e no curso de latim, sob a responsabilidade do Dr. Biolchini, Dom Pedro II teve ocasião de avaliar o progresso dos alunos. O artigo sublinha que Sua Majestade se mostrou particularmente satisfeito com as provas apresentadas, elogiando inclusive em voz alta o desempenho do estudante Martinho Xavier Rebello. Ao concluir a visita, o Imperador dirigiu palavras “muito lisonjeiras à direção” da instituição, reconhecimento que se estendia ao trabalho de seus professores, entre eles Achille Biolchini.
Este episódio não foi um fato isolado na vida de Achille. Apenas três anos antes, em 1º de junho de 1883, Dom Pedro II havia visitado o Collegio Biolchini & Paixão, também em Petrópolis, ocasião em que elogiou publicamente a direção do estabelecimento. Assim, em um curto intervalo de tempo, o nome de Achille esteve ligado a duas instituições educacionais distintas, ambas merecedoras da atenção e do apreço pessoal do monarca.
A recorrência dessas visitas demonstra a continuidade do prestígio de Achille Biolchini no cenário educacional do Império. Não apenas um momento fortuito, mas um reconhecimento reiterado de seu trabalho como educador e dirigente escolar. Ao ser citado nominalmente em um jornal estrangeiro — e não qualquer jornal, mas um periódico português voltado a questões econômicas e sociais — o seu papel transcendeu o âmbito local, projetando-se além do Brasil.
Assim, as duas passagens imperiais, em 1883 e em 1886, consolidam a imagem de Achille como um educador de confiança, capaz de dirigir instituições respeitadas em Petrópolis, e de integrar-se de forma plena aos ideais de civilização e progresso promovidos por Dom Pedro II.
Assim, a presença de Achille em Petrópolis no início da década de 1880 não se limitou ao exercício docente, mas inseriu-o de forma efetiva no circuito cultural e social da cidade que, naqueles anos, funcionava como verdadeiro coração político do Império brasileiro.
OS ANOS DO FINAL DO IMPÉRIO NO RIO DE JANEIRO
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| Escola Normal, Rio de Janeiro - 1888 |
Em 11 de Setembro de 1891, toma posse como secretário da Escola Normal.
Estabelecido em Petrópolis e após dez anos desde a sua chegada em terras brasileiras, em 1881 comprou o Colégio São José, em Petrópolis, que pertencia ao Padre José Benedito Moreira, português de nascimento. O colégio se localizava na Rua dos Artistas, próximo ao Asilo do Amparo. Um ano mais tarde, em 1882, nasce seu segundo filho, Alberto.
Em 9 de dezembro de 1882, a Arcádia Romana admitiu Achille Biolchini entre seus membros, conferindo-lhe o título de Pastor Arcádico com o nome pastoral de Vitidio Zacinteo. Este nome, em conformidade com a tradição da Arcádia, evocava imagens da poesia clássica, remetendo à ilha de Zacinto, celebrada pela antiguidade greco-latina e retomada por poetas modernos como Ugo Foscolo, que imortalizou o lugar em seu célebre soneto “A Zacinto”. O certificado original, ainda hoje conservado, apresenta em sua estrutura a assinatura de outros pastores, entre eles Eristeno Massio e Camilo Euroteo, que atuaram como compastori na concessão do título, de acordo com os usos e costumes da academia literária romana.
Em abril de 1883, Achille Biolchini apresentou uma tese para o concurso da cadeira de Língua Italiana do renomado Colégio Imperial Pedro II, no Rio de Janeiro. Fundado em 1837 por decreto de Dom Pedro II, o colégio era a instituição de ensino secundário mais prestigiada do Império, verdadeiro modelo pedagógico para o Brasil oitocentista, destinado a formar a elite intelectual e política da nação.
O concurso, como era de praxe, exigia a apresentação de uma tese escrita e a defesa oral perante uma banca composta por professores e autoridades acadêmicas. Concorrer a uma cátedra no Colégio Pedro II significava alcançar um dos postos de maior distinção no magistério brasileiro. Embora tenha obtido o terceiro lugar na classificação, a participação de Achille destacou sua erudição e competência, sendo considerada uma prova de reconhecimento público de seu valor intelectual, sobretudo por se tratar de um estrangeiro que se integrara plenamente ao meio educacional do Império.
Como resultado dessa classificação honrosa, ainda no mês de abril, Achille foi convidado ao Palácio Imperial de Petrópolis, onde recebeu os cumprimentos pessoais do Imperador Dom Pedro II e de suas Altezas. Esse gesto, em si, possuía grande significado: representava não apenas uma deferência do monarca, mas também o reconhecimento de que Achille Biolchini já figurava entre os educadores respeitados da Corte. O contato direto com o Imperador, conhecido pelo seu apreço pelas línguas e literaturas estrangeiras, reforçou ainda mais a inserção de Achille nos círculos intelectuais e pedagógicos do Brasil imperial.
No dia 29 de Maio de 1883, o Imperador D. Pedro II vista o Colégio Biolchini e Paixão, em Petrópolis.
Maria Luiza, sua primeira filha, nasce em Petrópolis, em 1884.
Em 1885 participa ativamente em campanhas contra a escravatura e a favor da emancipação dos escravos. No dia 02 de dezembro, do mesmo ano, em Petrópolis, ajuda a organizar uma grande quermesse para arrecadar fundos para a causa abolicionista.
Nasce o filho Paulo Biolchini, em 26 de Outubro 1886.
Em 1886 traduz para o português o livro Il florilegio di Maria Lezinska, de Alessandro Gallerani. É vendido em Petrópolis ao preço de 1$000. Ainda em 1886 acumula o cargo de secretário da Igreja Matriz de Petrópolis.
Em 29 de Julho de 1886, por motivos superiores, Achille anuncia o fechamento do Colégio São José. O fato é noticiado no Jornal Mercantil.
Em 05 de Agosto de 1886, Achille e família mudam-se para o Rio de Janeiro. É então professor nos colégios Italo-Brazileiro e Menezes Vieira.
Em 19 de maio de 1888, manda imprimir dois folhetos de sua autoria, em comemoração da abolição da escravatura.
Em 1889 nasce Adelaide, no Rio de Janeiro.
Em 30 de março de 1890 é nomeado interprete oficial do idioma italiano pela junta comercial da capital federal.
Elvira, filha nascida em 1891, faleceria precocemente sem deixar descendentes. Nesta época, moraram à Rua São Pedro, No. 68, e depois na Rua Itapirú, No. 38, área onde hoje é denominada Rio Comprido.
Em 11 de Setembro de 1891 é nomeado Secretário da Escola Normal, atual Instituto de Educação, por decreto presidencial.
Euclides Biolchini, o filho caçula de Achille Biolchini, nasceu no Rio de Janeiro em 8 de março de 1893. No registro civil de nascimento, recebeu inicialmente o nome de Francisco Xavier, escolha que refletia a tradição católica da época, na qual era comum atribuir aos recém-nascidos nomes de santos ou figuras devocionais.
Contudo, quase duas décadas depois, Achille decidiu formalizar uma alteração significativa na identidade de seu filho. Em 29 de agosto de 1911, já com 18 anos de idade, Euclides compareceu pessoalmente ao cartório de registro civil, acompanhado de seu pai, munidos de uma sentença judicial que autorizava a modificação. Nesse ato, o nome originalmente registrado como Francisco Xavier foi oficialmente substituído por Euclides.
A decisão de realizar a mudança apenas na juventude de Euclides sugere que o nome “Francisco Xavier” nunca se consolidou no uso cotidiano da família e que o jovem já era conhecido como Euclides em seu convívio social e familiar. A formalização legal, portanto, representava não apenas uma correção documental, mas também o reconhecimento público e jurídico de uma identidade já estabelecida de fato.
A escolha do nome Euclides pode ter sido motivada por referências à cultura clássica e científica — evocando o célebre matemático grego Euclides de Alexandria — ou ainda por influências do ambiente intelectual brasileiro do início do século XX, período marcado pela valorização de figuras do pensamento racional e científico.
Esse episódio singular destaca-se na trajetória da família Biolchini: entre todos os filhos de Achille, Euclides foi o único a ter seu nome modificado judicialmente muitos anos após o nascimento, revelando tanto o cuidado paterno em regularizar a documentação quanto a importância da identidade escolhida para acompanhar o filho ao longo da vida adulta.
Em 15 de Maio de 1893, é exonerado pelo prefeito Barata Ribeiro do cargo de secretário da Escola Normal. Achille requer ao novo prefeito, General Valladares, meios para se defender da exoneração. Em 14 de Julho de 1893, atendendo ao pedido, o prefeito instaura processo na 3a. Procuradoria. Esse processo foi concluído em 04 de Setembro de 1893 e deu como resultado o cancelamento da nota de sua demissão, mas não lhe devolveu o cargo. Essa pendência se arrastou na justiça por décadas, envolvendo em última instância o Supremo Tribunal Federal.
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| Recurso Extraordinário No. 355 |
Seu filho caçula, Euclides, nasce em 1893.
Em 15 de Maio de 1894, já exonerado da Escola Normal, dedica-se ao ofício de tradutor e intérprete. Ocupa também o cargo de primeiro secretário da Companhia de Seguros Mútuos Contra Fogo Americana.
Em 1896, leciona latim no Externato Gabalda, na Rua do Rosário, 124. Como tradutor dos idiomas italiano, espanhol e francês, tem seu escritório à Rua Primeiro de Março, No. 32.
Em 1889, reside na Rua Senador Dantas, No. 40, centro do Rio de Janeiro.
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| À direita: Colégio Pedro II |
Em 12 de Fevereiro de 1903, o prefeito do Distrito Federal, Pereira Passos, aponta Achille Biolchini para integrar uma comissão com objetivo de desenvolver a instrução pública.
Ainda lutando contra sua demissão, o Recurso extraordinário No. 815 foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal e publicado no Diário Oficial da União em 04 de Dezembro de 1912. Negado o provimento no qual a Prefeitura do Distrito Federal invocava a prescrição da dívida. O Tribunal entendeu que as leis federais de 1902 que tratam na prescrição de dívidas quinquenais federais não podem retroagir à 1893, data de quando os fatos ocorreram e de onde a dívida se originou. Ficou então, mais uma vez, a Fazenda Municipal do Distrito Federal condenada a pagar com juros os salários que Achille deixou de receber desde 1893. Mesmo após o julgamento desfavorável, a Fazenda Municipal se recusou a pagar. Foi protelando por diversos motivos espúrios, até 1921.
Em 24 de agosto de 1905, já doente e sem renda fixa, enfrenta sérios problemas financeiros. É obrigado mudar-se de sua residência.
Como tradutor juramentado e registrado na junta comercial do Rio de Janeiro, Achille traduziu diversos documentos que foram incorporados na Coleção das Leis do Brasil, publicado em 1907 pela Imprensa Nacional.
Em 05 de Maio de 1908, praticamente cego, Achille pede a junta comercial para ser substituído devido a doença.
Devido a uma pneumonia gripal, falece o filho Paulo Biolchini, militar de carreira, aos 23 anos. Euclides, então com 17 anos, fez a declaração do óbito.
Por volta de 1912, Achille tem escritório registrado á Rua Moreira Cesar, No. 68.
Em decorrência de uma artério esclerose generalizada, Achille faleceu em 03 de Outubro de 1912, em sua casa à Rua Uruguai No. 221, Tijuca, Rio de Janeiro. Foi declarante do óbito, o filho caçula, Euclides Biolchini.
Finalmente, em 1921, mais de uma década após o falecimento de Achille, a justiça, ainda que tardia, prevaleceu. A Prefeitura do Distrito Federal, reconhecendo uma dívida há muito negligenciada, efetuou o pagamento aos herdeiros de Achille. Este montante não apenas cobria o valor original, mas também incluía os juros e a correção monetária devidos ao longo de todas aquelas décadas, refletindo o verdadeiro custo da demora.
O valor exato pago, 90:226$200, ou seja, noventa contos, duzentos e vinte e seis mil réis, representava uma quantia exorbitante para a época. Para contextualizar a magnitude dessa soma, basta recordar que o Padre Paolo, irmão de Achille, ao se preparar para retornar à Itália, vendeu sua residência por apenas três contos de réis. Essa comparação não só sublinha a riqueza acumulada pela dívida de Achille, mas também oferece um vislumbre das disparidades econômicas daquele período e da valorização dos bens. O pagamento encerrou um longo capítulo de incerteza para a família de Achille, proporcionando-lhes, finalmente, a justa compensação.





